Já imaginou como é a rotina de quem trabalha em investment banking, a área dos bancos responsável por assessorar grandes empresas em operações financeiras? No Fin4She Summit, as participantes tiveram a oportunidade de conhecer um pouco desse universo durante a mentoria conduzida por Priscila Muro, diretora executiva de investment banking no Morgan Stanley, realizada nesta terça-feira (2).
Em uma das salas de vidro da Faap, um grupo de doze mulheres acompanhou uma conversa sobre os desafios, as oportunidades e o dia a dia da profissão. Quem trabalha na área auxilia empresas em diferentes processos, desde fusões e aquisições, quando uma companhia compra ou se une a outra, até operações de emissão de dívidas ou de ações. A divisão de investment banking está presente tanto nos bancos internacionais, com maior capilaridade global, como o próprio Morgan Stanley, quanto nos bancos tradicionais locais, a exemplo do Itaú e do Bradesco, que atendem o varejo, mas também possuem áreas dedicadas às grandes companhias. Há ainda as boutiques, casas menores que trabalham especificamente com fusões e aquisições.
Mercado predominantemente masculino
Muro destacou que esse é um mercado predominantemente masculino, o que faz com que muitas mulheres tenham receio de ingressar na área. Ela relembrou uma reunião com um cliente em que apenas ela e outra mulher estavam presentes na sala. “Embora seja um espaço ainda muito masculino, isso não significa que as mulheres não podem ser bem-sucedidas”, afirmou a executiva.
A diretora está no Morgan Stanley há doze anos e tem observado uma mudança de paradigma, com mais pessoas percebendo a importância de desenvolver um ambiente diversificado. Para Muro, uma das qualidades das mulheres para o trabalho em investment banking é a habilidade de equilibrar um perfil mais comercial, voltado para negociações, com qualidades técnicas. “Entre os homens, encontramos, algumas vezes, perfis totalmente técnicos, sem capacidade comercial. As mulheres conseguem equilibrar melhor os dois lados”, comentou.
Longas horas de trabalho, remuneração alta e pressão por resultados
Muro descreveu o investment banking como uma área dinâmica, marcada por desafios constantes e pela necessidade de adaptação rápida a diferentes situações. Segundo a executiva, o segmento é indicado para profissionais que não se identificam com uma rotina previsível e se sentem confortáveis em ambientes de alta carga de trabalho. Devido à intensidade do dia a dia, há uma curva de aprendizagem acelerada. Os profissionais trabalham por muitas horas, inclusive de madrugada ou nos finais de semana. “Muitas vezes, estamos envolvidos com a transação da vida dos clientes, então existem momentos em que eles querem falar com a contraparte no final de semana ou marcar uma conversa com a família”, exemplificou.
Apesar dos desafios, quem entra em investment banking consegue ter oportunidades logo no início da carreira, como a chance de participar de reuniões com CEOs e CFOs (diretores financeiros) de empresas. Ao mesmo tempo, os estagiários também assumem tarefas mais operacionais, como preparar apresentações e organizar informações sobre potenciais parceiros de uma transação. Nessa fase, embora as atividades possam ser mais burocráticas, a cobrança costuma ser menor. À medida que os profissionais avançam na carreira, a responsabilidade e a pressão por resultados aumentam.
Conciliação entre vida pessoal e profissional
Embora o investment banking seja conhecido por oferecer remunerações altas, Muro reconheceu que conciliar a vida pessoal com o trabalho, especialmente no início da trajetória profissional, pode ser um desafio. Segundo ela, esse equilíbrio tende a melhorar com o avanço na carreira. Hoje, mãe de um filho de 1 ano, a executiva consegue reservar um horário fixo para sair do trabalho e colocá-lo para dormir.
Quando se trata de remuneração, de acordo com o Guia Salarial 2026, da consultoria Michael Page, sócios que atuam na área de fusões e aquisições em grandes empresas recebem salários fixos entre R$ 18 mil e R$ 22 mil mensais, além da remuneração variável. Na área, existe o chamado sucess fee, uma “comissão de êxito”, paga ao investment banking apenas quando uma transação específica, como uma fusão ou aquisição, é bem-sucedida. “O processo pode durar dois anos e demandar um trabalho intenso de toda a equipe. No fim, o cliente pode decidir não seguir adiante. Nesse momento, a receita é zerada”, afirmou.
Diversidade de perfis e impacto da inteligência artificial
A executiva também destacou a diversidade de perfis presentes na área. Há profissionais que migraram de equipes de research (pesquisa e análise), além de pessoas formadas em cursos como direito e administração, não apenas economia. Questionada sobre a implementação da inteligência artificial (IA), Muro avaliou que a tecnologia tem potencial para aumentar a produtividade, mas enfrenta limitações no investment banking devido à confidencialidade das informações. Segundo ela, as ferramentas utilizadas precisam ser pré-aprovadas dentro das instituições financeiras. A executiva acredita que a IA poderá reduzir a demanda por profissionais em cargos de entrada, mas vê essa transformação como um processo gradual.



