Desde a quebra da patente da semaglutida, as canetas emagrecedoras ganharam versões brasileiras mais baratas e acessíveis, impulsionando o mercado de GLP-1 no Brasil. O Itaú BBA estima que esses medicamentos movimentem aproximadamente R$ 61 bilhões até 2030, com 40% desse total correspondendo a medicamentos de marca, 17% a similares e genéricos, e 43% ao mercado não monitorado ou paralelo.
Crescimento acelerado e impacto no setor farmacêutico
Dados da IQVIA mostram que o mercado formal de GLP-1 atingiu R$ 14,6 bilhões nos doze meses até abril de 2026, uma alta de 110% na comparação anual. O BBA estima um mercado adicional não monitorado de R$ 12,5 bilhões no mesmo período, totalizando R$ 27 bilhões. Sem os GLP-1, o mercado farmacêutico teria crescido 8,6%, e não os 11,7% observados. Os GLP-1 contribuíram com aproximadamente 3,1 pontos percentuais para o crescimento, representando cerca de 26% dos R$ 26,8 bilhões de expansão do setor. “A participação dessa categoria no crescimento do setor está entre as maiores que já observamos para uma única classe terapêutica no varejo farmacêutico brasileiro”, afirmam os analistas do Itaú BBA.
Setores em movimento: farmacêuticas, planos de saúde, vestuário, alimentos e aviação
Em um evento multissetorial sobre GLP-1, o Itaú BBA reuniu representantes de diversos setores para discutir como esses medicamentos estão moldando decisões estratégicas no mercado nacional.
Farmacêuticas
A EMS confirmou que sua capacidade produtiva suporta uma demanda de 2 a 4 vezes superior à atual. O vice-presidente institucional da companhia, Marcus Sanchez, afirmou que a EMS alcançará a produção de 1,2 milhão de canetas por mês dentro de 3 a 4 meses após o lançamento do produto, com uma segunda linha de produção já disponível.
Planos de saúde
Para a Porto Seguro (PSSA3), os GLP-1 trazem um dilema entre custo de curto prazo e benefício de longo prazo. O diretor de produtos Vicente Lapenta afirmou que, se os GLP-1 fossem incorporados ao rol da ANS, cerca de R$ 50 por segurado seriam adicionados por mês, representando aproximadamente +12 pontos percentuais no VCMH. No longo prazo, a incorporação poderia reduzir eventos cardiovasculares estruturais em cerca de 14% e internações hospitalares em aproximadamente 11%.
Vestuário
A Riachuelo (RIAA3) é a primeira empresa do setor a oferecer dados concretos sobre o impacto das canetas emagrecedoras. A companhia registrou uma redução média de 5% no mix de tamanhos de suas peças (da faixa PP a GG), com categorias de uso cotidiano, como camisetas, registrando queda de 4%. Os tamanhos PP e P estão começando a faltar nos estoques, enquanto G e GG se acumulam nas lojas. A projeção é de que o mercado plus size contraia aproximadamente 6% em 2026. A Riachuelo também informou que 80% das pessoas que perdem peso afirmam precisar renovar o guarda-roupa, e 55% já o fizeram.
Alimentos e bebidas
Produtos funcionais ganham destaque. A Nestlé destacou que 71% dos consumidores brasileiros buscam ingestão diária de proteína. Entre os 800 principais lançamentos da NielsenIQ, itens com alegações de alto teor de proteína, baixo/zero açúcar ou baixo/zero álcool apresentaram desempenho em volume aproximadamente 50% superior. A Heineken anunciou investimentos em cervejas premium e sem álcool, e lançou uma cerveja sem glúten, baixa caloria e menor teor alcoólico.
Aviação
O CEO da Azul (AZUL3), John Rodgerson, revelou que, para cada redução média de 2 kg no peso dos passageiros, a companhia economizaria aproximadamente R$ 3 milhões por mês em combustível. O combustível de aviação praticamente dobrou de preço nos últimos três meses, representando cerca de 50% da estrutura de custos da Azul.
Riscos e oportunidades
A penetração dos GLP-1 no Brasil ainda é baixa: cerca de 4,6% dos domicílios utilizam esses medicamentos, enquanto 26% da população é potencial usuária, mas enfrenta barreiras de custo ou informação. O preço médio de R$ 700 por mês pode representar até 25% da renda média das famílias. O Itaú BBA aponta que a expansão do mercado dependerá da redução desse custo. O principal risco é a possível incorporação dos GLP-1 no SUS, que poderia deslocar parte da demanda do varejo farmacêutico. No entanto, o banco avalia que eventuais iniciativas devem começar de forma restrita, focadas em pacientes com obesidade severa, limitando o impacto no curto prazo. Para o Itaú BBA, o GLP-1 representa uma mudança estrutural, e não apenas um fenômeno passageiro.



