As varejistas de medicamentos brasileiras acumulam uma desvalorização expressiva desde o início do ano, segundo um relatório divulgado pelo JPMorgan nesta terça-feira (2). As ações da RD Saúde (RADL3) e da Pague Menos (PGMN3) registram quedas de 20% e 30%, respectivamente, contrastando com a valorização de 7% do Ibovespa. Na sessão desta terça, os papéis da primeira sobem 0,05%, a R$ 17,87, e da segunda, 2,20%, a R$ 4,19.
De acordo com o relatório, tal subperformance reflete três grandes receios do mercado financeiro: o medo de uma desaceleração nas receitas devido a um crescimento mais brando dos medicamentos da categoria GLP-1; o aumento da concorrência de e-commerce, com destaque para o Mercado Livre; e os potenciais impactos negativos decorrentes da proposta de reforma trabalhista no país.
Preocupações exageradas, segundo o banco
“Embora sejam riscos importantes, à medida que nos aprofundamos nesses temas, acreditamos que as preocupações estão exageradas”, destaca o relatório do JPMorgan. Os analistas ressaltam que o momento dos resultados das companhias segue beneficiado por tendências estruturais resilientes, tais como o envelhecimento da população, a forte demanda por tratamentos voltados à perda de peso e o contínuo processo de consolidação de mercado, no qual as grandes redes seguem roubando participação de players independentes.
Assim, o JPMorgan enxerga o atual nível de preço como um ponto de entrada sólido para as ações da RD Saúde, que permanece listada como uma das principais escolhas (top picks) do banco no segmento de Varejo e Saúde na América Latina, ao lado de Tiendas 3B e Rede D’Or.
Impacto do GLP-1
Conforme o relatório, o mercado temia que a demanda pelos medicamentos emagrecedores baseados em GLP-1 estivesse perdendo fôlego após os dados de importação da Secex mostrarem enfraquecimento em abril. Porém, os analistas acreditam que essa queda foi pontual, sendo apenas um processo de digestão do estoque considerável formado pelas farmácias entre fevereiro e março, além do fato de as promoções pré-reajuste anual de preços terem antecipado compras.
O relatório aponta que os volumes de abril continuaram acima da média de 2025 e que, “embora as tendências mensais/de curto prazo possam ser erráticas – abril foi fraco, mas o feedback do setor é de que as vendas se recuperaram mais do que o esperado em maio”. Em paralelo, os dados de sell-out da IQVIA registraram uma robusta expansão de 14% na comparação anual, ratificando a saúde da demanda.
E-commerce
Vale frisar que os analistas desmistificaram uma possível ameaça das grandes plataformas de e-commerce, através do monitoramento de dados proprietário da JPMorgan: o banco cruzou cerca de 2 mil SKUs do Mercado Livre com os portfólios das farmácias. Os dados registraram que os preços da plataforma online estão majoritariamente em paridade com os das redes físicas líderes, e não estruturalmente mais baixos.
O Mercado Livre cobra mais caro em itens de menor valor unitário, como os medicamentos OTC, conseguindo uma vantagem somente em dermocosméticos de valor maior, segmento no qual as redes tradicionais ainda superam a concorrência digital em termos de prazos e níveis de serviço de entrega.
Efeitos do fim da Escala 6×1
O documento feito pelo JPMorgan diz que a proposta de reforma trabalhista em discussão no Brasil (fim da Escala 6×1) representa uma ameaça real sobre o aumento de despesas para o varejo farmacêutico, que opera tradicionalmente com longas jornadas, turnos aos finais de semana e coberturas mínimas de pessoal nas lojas. Apesar disso, os analistas projetam que o impacto dessa regulação pesará de maneira desigual e acabará por acelerar a consolidação do mercado no longo prazo, sufocando as redes menores e os operadores independentes.
Entre as empresas de capital aberto, eles reforçam que a RD Saúde desponta com maior flexibilidade operacional, uma vez que mais de 90% de suas filiais já trabalham sob o regime de escala 5×2. Por outro lado, a Pague Menos está dentro de uma posição mais vulnerável, segundo o relatório, já que está em pleno processo de recomposição de seu quadro de funcionários conforme suas vendas por loja se recuperam, apresentando despesas comerciais crescendo acima da inflação e produtividade inferior à da concorrente direta.
Valuation
No ambiente de valuation, os múltiplos de negociação das duas companhias brasileiras recuaram para patamares próximos das mínimas históricas. O JPMorgan reforça que a RD Saúde está sendo negociada a 21,2 vezes o P/E projetado para a estimativa de 2026 e 15 vezes para 2027. Os analistas consideram o patamar excessivamente barato para uma empresa com um CAGR esperado de 29% para o seu LPA entre os anos de 2026 e 2028.
Eles ainda ressaltam que os múltiplos da Pague Menos também flertam com o piso histórico, mas o banco enxerga a sua configuração como menos atraente devido a uma menor qualidade de lucros e a restrições na geração de FCF. Ao revisar seus modelos financeiros, o JPMorgan manteve as estimativas de LPA para 2027 praticamente estáveis, aplicando cortes sutis de 2% para a RD Saúde e de 3% para a Pague Menos.
Devido à alta do custo de capital próprio adotado na modelagem do banco de investimentos, o preço-alvo estabelecido para as ações da RD Saúde para dezembro de 2026 passou de R$ 28,00 para R$ 27,00 por ação. O banco reitera que não possui um preço-alvo formal fixado para as ações da Pague Menos.



