Emicida e Esther Duflo lançam livros infantis sobre pobreza e desigualdade
Emicida e Duflo lançam livros infantis sobre pobreza

O cantor paulistano Emicida e a economista franco-americana Esther Duflo, vencedora do Prêmio Nobel de Economia em 2019, uniram-se para lançar dois livros infanto-juvenis que abordam a pobreza e a desigualdade social. As obras "Volta por cima" e "Conta comigo" foram publicadas pela Companhia das Letrinhas e convidam crianças a refletir sobre soluções coletivas para esses desafios.

Histórias que inspiram reflexão

Os livros narram as trajetórias de personagens como Imeuni, Tsongai e Bibir, que vivem em lugares fictícios, mas que poderiam estar na África, Ásia ou América do Sul. Em "Volta por cima", uma jovem busca trabalho e enfrenta dificuldades, abordando temas como empreendedorismo, economia local, inovação e microcrédito. "Esse livro trata da dificuldade (mas também da possibilidade) de encontrar o próprio caminho", explica Duflo à BBC News Brasil. "A personagem quer muito trabalhar, mas tem poucas oportunidades. Ela tenta, fracassa e tenta novamente até encontrar seu caminho. É uma jovem forte, que pode servir de exemplo tanto para meninos quanto para meninas."

Já em "Conta comigo", valores como solidariedade, comunidade e empreendedorismo surgem, abordando também violência doméstica, etarismo e preconceito. A mensagem central, segundo Duflo, é que "crianças pobres não são perigosas, pais pobres não são preguiçosos e pessoas pobres têm vidas ricas, cheias de amizades e significados", como quaisquer outras pessoas. "E também que a pobreza causa muitos problemas, mas nós, seres humanos, também podemos encontrar as soluções. É por isso que cada um desses livros gira em torno de um problema e de uma solução — uma solução que, na minha profissão como economista, vi que realmente funciona."

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Ilustrações e condução da leitura

As ilustrações são de Cheyenne Olivier, ilustradora francesa especializada em livros infantis, que se inspirou no universo visual dos gráficos de economia para despertar a curiosidade das crianças. Emicida atua como condutor da leitura, com comentários que convidam à reflexão, conectando as histórias com sua própria vida. Duflo revela que não conhecia Emicida pessoalmente, mas sua ilustradora era fã do cantor. "Minha ilustradora, Cheyenne, cresceu ouvindo as músicas dele, ela era muito fã."

Metodologia e mitos sobre a pobreza

Duflo ganhou o Nobel com Abhijit Banerjee e Michael Kremer por uma nova abordagem no combate à pobreza global, aplicando projetos de política pública em pequenas comunidades e avaliando resultados. Em seus experimentos, ela derrubou mitos sobre os mais pobres. "A primeira coisa que notei quando desembarquei na Índia é que as pessoas mais pobres vivem vidas muito mais normais do que eu esperava", disse em entrevista à BBC News Brasil em julho de 2024. Ela mostrou que conceder empréstimos para iniciar negócios não leva necessariamente a uma melhora drástica no bem-estar. "É claro que não estamos dizendo que não existem empreendedores genuínos entre os pobres — conhecemos muitas pessoas assim. Mas também há muitos deles que dirigem um negócio condenado a permanecer pequeno e não lucrativo", escreve em seu livro "A Economia dos Pobres" (Editora Zahar, 2021).

Orientações para adultos

Ao final de "Volta por cima", Duflo escreve: "Nem todas as pessoas pobres sonham em ser Bill Gates". Em uma seção intitulada "O que Esther Duflo tem a dizer sobre a pobreza", ela orienta adultos a discutir os temas com as crianças. "Para ajudar os jovens a se encontrar profissionalmente e sair da pobreza, é preciso se desfazer da ilusão de que ter sua própria empresa é necessariamente o melhor caminho. Isso pode até ser verdade para alguns, mas, para muitos, a melhor solução seria ter um emprego de acordo com suas aspirações."

As obras são indicadas para leitores a partir dos 9 anos. Duflo garante que as crianças são capazes de compreender os temas. "As crianças são capazes de entender e lidar com qualquer assunto, e existem muitos estereótipos sobre a pobreza por aí", afirma. Para ela, os livros são sementes para formar adultos mais empáticos e otimistas. "A esperança é que elas cresçam e se tornem adultos mais empáticos e otimistas, que contribuam para melhorar o mundo."

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