A transição de liderança é um momento crítico na carreira de qualquer profissional sênior. Quando um gestor deixa a empresa, a sintonia construída ao longo de meses ou anos desaparece, e o colaborador precisa recomeçar do zero. Esse cenário está se tornando cada vez mais comum, com altas taxas de rotatividade em todos os níveis hierárquicos.
O cenário atual das transições de liderança
De acordo com a Gartner, quase metade dos gestores corre risco de fracassar em suas funções. Já a McKinsey aponta que entre um terço e metade dos novos CEOs não conseguem se manter no cargo por mais de 18 meses. Cada fracasso gera uma substituição, acelerando o ciclo de mudanças.
Além disso, reestruturações organizacionais em larga escala aumentam a rotatividade. Dados da Gallup indicam que o número médio de subordinados diretos por gestor subiu de 10,9 em 2024 para 12,1 em 2025, à medida que as empresas reduzem níveis hierárquicos e ampliam a abrangência dos líderes remanescentes. O resultado é que muitos profissionais agora se veem respondendo a uma sucessão constante de gestores.
Oportunidade em meio à incerteza
Cada transição traz riscos: mudança de prioridades, perda de visibilidade ou uma relação de trabalho que nunca se encaixa. Mas também abre uma oportunidade real. Um novo gestor significa um recomeço — a chance de apagar narrativas antigas e redefinir expectativas. A forma como você se posiciona nas primeiras semanas pode moldar sua reputação pelos próximos anos.
Seu gestor controla acesso a recursos, oportunidades e visibilidade, influenciando diretamente se o trabalho será estimulante ou desgastante. No entanto, muitos profissionais adotam uma postura passiva diante da mudança, preferindo esperar para ver. Essa abordagem pode ser prejudicial.
Sete estratégias para aproveitar a transição
1. Recomece de verdade
Ao saber que terá um novo gestor, emoções como alívio, entusiasmo, frustração ou apreensão podem surgir. Reconheça esses sentimentos para evitar reações impulsivas. Resista a formar opiniões baseadas em relatos de terceiros; comprometa-se a construir sua própria percepção. Pergunte-se: qual é a oportunidade aqui? Pesquisas sobre aversão à perda mostram que tendemos a focar no que podemos perder, mas buscar intencionalmente oportunidades ajuda a enxergar possibilidades.
2. Aproveite o intervalo
Entre a saída do gestor anterior e a chegada do novo, pode haver um período de meses. Em vez de tratar esse tempo como morto, invista no líder interino. Entenda suas expectativas, compartilhe suas aspirações e peça feedback. Se um ciclo de avaliação estiver próximo, forneça ao interino os insumos necessários para uma avaliação justa. Use também esse período para ampliar sua rede interna.
3. Não desperdice o recomeço do zero
Um novo gestor não conhece seus erros passados ou padrões antigos. Pense em como deseja ser visto e transforme essa intenção em comportamentos visíveis desde o primeiro dia. Pesquisas mostram que as pessoas formam impressões duradouras em segundos. Aproveite para redefinir papéis e responsabilidades, destacando-se pelo que você quer ser conhecido.
4. Prepare um resumo executivo
Seu novo gestor está absorvendo muitas informações. Um resumo claro sobre sua área ajuda a situá-lo rapidamente e posiciona você como parceiro estratégico. Organize em duas categorias: o que os números mostram (KPIs, métricas, status de iniciativas) e o que não mostram (pontos fortes da equipe, lacunas, riscos, dinâmica interna). Envie esse material antes da primeira reunião.
5. Descubra rapidamente como ele trabalha
Não espere que o gestor apresente espontaneamente seu estilo de trabalho. Inicie a conversa perguntando sobre áreas de visibilidade, tipos de decisão que prefere validar, prioridades de curto e médio prazo, preferência por más notícias e o que mais o incomoda. Observe também seus padrões de comportamento: o que o anima, o que o desliga, como reage sob pressão.
6. Alinhe-se com seus pares
O novo gestor forma impressões sobre todo o time. Uma equipe fragmentada ou confusa gera ansiedade e atrai mais supervisão. Evite disputas políticas; em vez disso, procure seus pares proativamente para esclarecer sobreposições e resolver pendências antes que o gestor esbarre nelas. Isso demonstra maturidade e confiabilidade.
7. Proteja suas opções
Novos líderes frequentemente trazem pessoas de confiança. Enquanto constrói confiança com o novo gestor, mantenha uma higiene básica de carreira: atualize seu currículo, retome contato com ex-colegas e mentores, e avise sua rede sobre a mudança. Isso não significa manter um pé fora da empresa, mas garantir que, se a relação não funcionar, você esteja preparado.
Conclusão
A mudança de gestor traz instabilidade, mas os líderes que prosperam são os que agem com intenção para moldar o relacionamento, sua reputação e sua trajetória. Essas estratégias não eliminam a incerteza, mas colocam você no comando. A transição já está acontecendo; faça com que ela trabalhe a seu favor.
Dina Denham Smith é coach executiva e consultora estratégica que trabalha com líderes seniores em organizações como Google, Netflix, Sephora e Goldman Sachs. Também integra o Thinkers50 Radar e é coautora de Emotionally Charged: How to Lead in the New World of Work.
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