Ao longo da história das Copas do Mundo, o futebol brasileiro conquistou o planeta, erguendo o troféu em cinco ocasiões. No entanto, o que verdadeiramente fascinou gerações de torcedores foi o nosso jeito único de jogar, o estilo que encanta. Dessa forma, nasceu a mística: o encanto internacional pela camisa verde e amarela.
A ousadia como marca registrada
Nesta quarta-feira (3), a série especial do Jornal Nacional exaltou a ousadia dos jogadores brasileiros, a arte de inventar o que ninguém havia visto antes. Uma ousadia feita de imaginação, atrevimento e coragem. “Agora, imagine você, em uma Copa do Mundo, dar um lençol no goleiro. Quantos já fizeram isso até hoje? Faz essa pesquisa”, afirma Jairzinho, campeão mundial em 1970. Podemos procurar à vontade. Jairzinho sabe do que fala, sendo uma autoridade de um Brasil inesquecível. Há cinco décadas, ele varreu a Copa de 1970 como um furacão, o que lhe rendeu até o apelido.
O futebol brasileiro concebeu momentos únicos diretamente ligados a um traço importante do nosso jeito de ser. Muitas vezes, a audácia partiu do banco de reservas. “O técnico da Seleção Brasileira João Saldanha acaba de ser substituído por Mario Jorge Lobo Zagallo”, relembra a narração. “É o único treinador do futebol mundial que teve a audácia, a coragem de colocar cinco de números dez para jogar junto”, destaca Jairzinho. Jairzinho, Gerson, Tostão, Rivelino e Pelé: um banho de Brasil nos adversários, com maestria técnica, improvisos, leveza nos movimentos e uma campanha perfeita: seis jogos, seis vitórias, 19 gols.
A improvisação que encanta
“A improvisação, a forma de dominar uma bola, a forma de conduzir a bola, a forma de você driblar”, enumera Jairzinho. “Na hora que o Brasil atacava, nós ficamos com três e atacava com sete, porque nós tínhamos cinco 10. Eu só tenho que agradecer a Deus e aos jogadores que participaram”, disse Zagallo. O Brasil se tornou tricampeão do mundo com uma aula de futebol na Itália: 4 a 1 na final.
A ousadia é uma marca dessa nossa história cheia de conquistas, dando vida à melhor expressão do Brasil. O drible que desconcerta, o atrevimento de um menino, a dança que desafia o ódio, a coragem de acreditar até o fim.
O legado e o futuro
Agora, o homem que vai comandar todo esse legado está decidido: o Brasil vai buscar o hexa com um, dois, três, quatro atacantes em campo ao mesmo tempo. “Os quatro delanteros têm que trabalhar e correr. É uma conexão entre talento e a organização, o sacrifício”, afirma Carlo Ancelotti, técnico da Seleção Brasileira. A presença de Ancelotti é arrojada em si: será o primeiro estrangeiro a comandar a Seleção em uma Copa do Mundo. O italiano captou bem o espírito da casa: quer um time corajoso.
Ancelotti é uma testemunha do nosso estilo. Em 1994, ele estava do outro lado, como assistente técnico da Itália, e ficou impressionado: “Ver o Brasil jogar dessa maneira foi uma surpresa muito grande”. Uma ideia de Carlos Alberto Parreira. “O Raí era o grande jogador do Brasil, junto comigo, o Bebeto, o número 10. O Parreira teve a ousadia de tirar o Raí e botar o Mazinho. E deu certo”, conta Romário, campeão mundial em 1994.
Adaptação e superação
Se o Brasil de 1970 tinha cinco camisas 10, o de 1994 ficou sem nenhum a partir das oitavas. O time sofreu apenas dois gols nos quatro jogos seguintes e reencontrou a Itália em uma final. “O time do Brasil foi muito sólido. ‘Mas não foi brilhante, não jogou bonito’. O time não jogava feio, o time tinha posse de bola. Hoje está aqui conosco o tetracampeão Carlos Alberto Parreira, essa é a grande marca”, afirma Parreira.
Oito anos depois, um homem se atreveu a desafiar a vontade do povo. “É horrível. Técnico é um cargo horrível”, afirma Luiz Felipe Scolari, campeão mundial em 2002. Felipão suportou a pressão por Romário em 2002. Na lista final, preferiu um atleta há quase dois anos sem jogar: Ronaldo Nazário. “Eu precisava de um jogador daquele jeito. É uma equipe. É confiança. Se a gente não confia, é brabo”, afirma Scolari. Ronaldo foi um fenômeno e, com Rivaldo e Ronaldinho Gaúcho, o time era imprevisível. O trio ajudou Felipão a bancar uma decisão difícil: jogar uma Copa com três zagueiros: Lúcio, Roque Júnior e Edmílson. “É a função do técnico. É ousadia também”, disse Felipão. Com um jeitinho de família, o Brasil levantou a Copa pela quinta vez.
Desafios recentes e esperança
Nos últimos 24 anos, a bola escolheu outros caminhos. Decepção, apagões, o trauma, derrotas doloridas e um pouco de azar também. No futebol, assim como na vida, às vezes é preciso buscar ajuda de fora quando não conseguimos resolver nossos problemas. “Chegar em segundo não é o suficiente, tem só que ganhar e nada mais”, afirma Carlo Ancelotti. Um estrangeiro capaz de nos compreender e nos reconectar com nossos melhores dias para moldar uma equipe que ouse ser Brasil e se reconheça em cada uma das cinco estrelas que carrega no peito.
Nesta quinta-feira (4) o tema da série é união — que valores unem os jogadores na adversidade e transformam a equipe em uma família.



