Cerca de 130 anos separam o primeiro jogo de futebol disputado no Brasil da partida entre a seleção brasileira e a Escócia pela Copa do Mundo, na noite desta quarta-feira (24). Uma relação de sangue une a história do esporte nos dois países.
Charles Miller: o pai do futebol brasileiro e suas origens escocesas
Charles Miller, apontado como o responsável por trazer o futebol ao Brasil, nasceu no Brás, tradicional bairro da cidade de São Paulo. Sua árvore genealógica, no entanto, remonta à Escócia do século XIX. Seu pai, John Miller, nasceu em 13 de junho de 1844, na cidade escocesa de Fairlie, ao sul do estuário de Firth of Clyde, na costa oeste do país.
John cresceu com a família no Reino Unido e se mudou para o Brasil em 1860, junto com o irmão Andrew, como parte da leva de imigrantes europeus que vieram ao país para trabalhar na construção da malha ferroviária. Ele trabalhou na São Paulo Railway, ferrovia que ligava Santos a Jundiaí.
Da Inglaterra ao Brasil: a jornada de Charles Miller
Charles era filho de John e Carlota Fox, brasileira de ascendência inglesa. Nascido em 1874 em uma chácara dos avós maternos, sob forte influência de uma criação em família britânica, o “pai do futebol brasileiro” viveu seus nove primeiros anos no país até ser enviado à Inglaterra para estudar. Lá, teve contato, na Banister Court School, em Southampton, com um esporte amador em ascensão entre os jovens ingleses. Os jogadores usavam os pés para conduzir e chutar a bola, com o objetivo de marcar gols nas traves adversárias.
Rapidamente, Miller se destacou como jogador no St. Mary’s e no Corinthian Football Club — sim, o time que inspiraria o nome do Sport Club Corinthians Paulista, de São Paulo. De volta ao Brasil, dez anos depois de seguir para a Inglaterra, Charles Miller trouxe na bagagem um par de chuteiras, duas bolas e uma cópia do regulamento oficial da associação de futebol de Hampshire.
O primeiro jogo de futebol no Brasil
No dia 14 de abril de 1895, já em solo brasileiro, ele organizou o que até hoje é considerado o primeiro jogo de futebol realizado no país. O time de funcionários da São Paulo Railway venceu os trabalhadores da Companhia de Gás por 4 a 2, em partida disputada na Várzea do Carmo.
Não demorou para que o esporte praticado pela comunidade britânica caísse no gosto dos brasileiros. Por iniciativa de Miller, foi criado um departamento de futebol no São Paulo Athletic Club (SPAC). A modalidade também passou a integrar clubes como Internacional, Mackenzie, Germânia e Paulistano — grupo que mais tarde fundaria a primeira liga organizada de futebol no Brasil.
Legado e controvérsias
Miller também brilhou em campo: pelo São Paulo Athletic Club, foi campeão dos três primeiros Campeonatos Paulistas, entre 1902 e 1904, e terminou como artilheiro em duas edições. Em homenagem ao seu nome, Charles, o drible de erguer a bola com o calcanhar ficou conhecido como “chaleira”. O “pai do futebol” morreu em 1953, já afastado do esporte, num momento em que o futebol se profissionalizava no país. Seu legado acabou eternizado em um dos principais marcos do futebol paulista: a Praça Charles Miller, em frente ao estádio do Pacaembu, em São Paulo.
Há, porém, controvérsia sobre a responsabilidade exclusiva de Miller por introduzir o esporte no Brasil. Registros apontam que, antes mesmo de ele trazer as primeiras bolas, chuteiras e o livro de regras, o também escocês Thomas Donohoe organizou uma partida no bairro de Bangu, no Rio de Janeiro, em 1894 — oito meses antes do jogo promovido por Miller na Várzea do Carmo. Donohoe era operário da indústria têxtil e teria pedido à esposa que importasse uma bola da Escócia. A partida teria sido disputada por colegas de trabalho em um campo ao lado da fábrica.
Nada disso muda o fato de que, de uma forma ou de outra, alguém com ascendência escocesa esteve na origem do esporte que o Brasil ajudaria a reinventar nas décadas seguintes. Na noite desta quarta-feira, Brasil e Escócia se enfrentam em jogo que vale classificação ao mata-mata da Copa do Mundo de 2026.



