Miami Beach decreta 'Dia Oljeberget' em homenagem à torcida norueguesa
Miami Beach decreta 'Dia Oljeberget' para torcida norueguesa

Miami Beach foi a mais recente cidade tomada pelas famosas remadas vikings da torcida norueguesa durante a Copa do Mundo. Nesta sexta-feira (10), véspera das quartas de final contra a Inglaterra, a cena ocorreu na Ocean Drive, em Miami Beach. O clube oficial de torcedores da Noruega, Oljeberget Supporterklubb, recebeu uma homenagem da prefeitura de Miami, que decretou o dia como o 'Dia Oljeberget' na cidade. Um representante da prefeitura de Miami Beach entregou o decreto a um dos torcedores.

Remada viking e identidade nacional

A 'remada viking' e o ensaio da seleção norueguesa não são fatos isolados. A exaltação da cultura viking remonta ao século XIX, quando eruditos ajudaram a conceber uma identidade nacional. Os noruegueses tomaram para si a herança dos vikings, com a imagem dos homens que viveram na região entre os séculos VIII e XI, conhecidos por saques, pilhagens e comercialização de escravos, do norte da Europa ao Mediterrâneo. Essa imagem coloca a 'remada' em debate, inclusive com vizinhos escandinavos como a Suécia.

Segundo o doutor em História pela UFF e especialista em estudos vikings e escandinavos, Caio Feó, a Noruega hoje tenta ressaltar outros aspectos da sua história, mas ainda ligados a marcas do passado. 'No século XIX, uma série de eruditos começou a recuperar o passado viking para destacar características que fundamentassem as bases da nação. Um artista importante é Frederik Nicolai Jensen, que mobilizou ideais de liberdade, domínio das armas e valorização da virilidade masculina. Uma de suas pinturas, 'Um viking rapta uma mulher do Sul', ajuda a dar essa dimensão', disse Feó. 'Hoje destacam o papel dos vikings como comerciantes, artesãos e construtores de navios, mas a principal mercadoria que comercializavam eram pessoas escravizadas. Para a Suécia, talvez não seja interessante se vender com uma imagem bárbara. Já a Noruega tem se agarrado a esse passado como guerreiros.'

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Estereótipos adotados pela extrema-direita

O debate sobre a identidade viking não é novo. Desde a Segunda Guerra, quando os nazistas exaltavam a herança germânica dos povos da Europa central e do norte, parte da população dos países escandinavos tenta romper com esse estereótipo. A imagem dos jogadores fantasiados foi criticada na imprensa local. 'Há uma espécie de estética masculina e uma vibração um tanto tóxica e infantil. Eles poderiam ter pensado em algo melhor', disse em junho a colunista Janne Stigen Drangsholt, do jornal Aftenposten.

Essa estética masculina ligada à virilidade faz os vikings serem usados como exemplos por extremistas. O mais famoso caso ocorreu nos Estados Unidos em 2021, quando apoiadores de Donald Trump invadiram a Casa Branca. Jacob Chansley, conhecido como 'Viking do Capitólio', usava um chapéu com chifres e foi preso e condenado, mas recebeu perdão presidencial de Trump em 2025. No Brasil, um influenciador de conteúdo masculinista que usa o apelido 'Viking' tem quase 500 mil seguidores nas redes sociais.

Luciane Belin, pesquisadora do NetLab da UFRJ, analisa: 'É uma visão de que a masculinidade está associada à força física, quase à brutalidade. O surgimento da 'machosfera' tenta resgatar uma 'masculinidade perdida', repudiando novas masculinidades que não sejam atreladas à força física, do desbravador, do líder.' Para Caio Feó, a ligação entre extrema-direita e estereótipo viking é resquício da relação feita pelos nazistas na Segunda Guerra. 'Os usos que o presente faz desse contexto são negativos. Para os teóricos nazistas, havia uma continuidade associada à pureza do sangue. Essa vinculação ainda é muito viva para extremistas.'

Posição da federação norueguesa

A Federação Norueguesa de Futebol, após o ensaio polêmico antes da Copa, preferiu ver o lado viking por outra perspectiva. 'Usamos a história como uma imagem de algo que ainda hoje é forte no futebol norueguês: comunidade, voluntariado, coragem e a capacidade de se manter unido', afirmou Ragnhild Ask Connell, diretora de comunicação da entidade.

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