Futebol sob fiança: a Copa de 2024 que repetiu Munique
Copa 2024: o esporte que não aprendeu nada em 50 anos

Desliguei a televisão derrubado. “5 de setembro” reconstitui a madrugada em que o esporte descobriu sua vocação para o cinismo: Munique, 1972, 11 atletas e treinadores israelenses sequestrados e mortos dentro da vila olímpica, diante das câmeras do mundo inteiro. E o que fez Avery Brundage, o barão dono do apito olímpico? Subiu ao púlpito do luto e decretou: “os Jogos devem continuar”. Continuaram. Trinta e quatro horas de pausa, menos tempo do que se gasta para trocar um gramado, e a bola estava rolando de novo, faceira, por cima dos corpos ainda quentes. Ali se lavrou a certidão de princípios do esporte oficial: o morto que tenha a decência de não atrapalhar o cerimonial.

O óbvio que envelhece como vinho

Sei que o idiota da objetividade vai torcer o nariz: “Isso faz mais de 50 anos”. Faz. E daí? Há óbvios que envelhecem como vinho: quanto mais o tempo passa, mais ululantes ficam. E este acaba de sair da adega.

Pois enquanto escrevo este memorial, a Copa do Mundo, que se diga, a mais cara da história, com ingresso a preço de rim, termina num estádio de Nova Jersey. Espanha e Argentina, festa completa, fogos, drones, hino. E eu pergunto, antes que a taça suba e a hipocrisia desça: que Copa foi essa?

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Uma Copa de revistas e deportações

Foi a Copa em que o primeiro árbitro somali da história, visto carimbado no passaporte com a chancela do próprio Departamento de Estado, foi barrado no aeroporto e devolvido como encomenda extraviada. Em que o atacante do Iraque ficou sete horas detido para interrogatório em Chicago. Sete horas! Nem o VAR humilha tanto. Em que a delegação do Senegal foi revistada ainda na pista de pouso, mala por mala, como quadrilha em flagrante, protocolo que, por misteriosa coincidência, nenhuma seleção europeia conheceu.

Em que torcedores do Marrocos e da Escócia, passagem e ingresso pagos, tiveram documentos cassados na véspera do embarque. Em que se chegou a exigir de torcedor africano fiança de até US$ 15 mil pelo direito de gritar gol. Em que o torcedor comum do Irã, do Haiti, do Senegal e da Costa do Marfim simplesmente não puderam ir: seus países entraram na lista dos malditos. E, enquanto a Fifa pendurava bandeirolas, o serviço de imigração prendia 167 mil pessoas nas 11 cidades-sede. Cento e sessenta e sete mil! Tem estádio desta Copa que não comporta tanta gente.

O mundo virou de ponta-cabeça

O mundo virou de ponta-cabeça e ninguém avisou ao esporte. Antigamente, era o Departamento de Estado americano que emitia alerta de viagem sobre os países dos outros. Nesta Copa, foi a Anistia Internacional que emitiu alerta de viagem sobre os Estados Unidos. Até a ONU pediu, com a polidez de quem já sabe que não será ouvida, um “repensar maciço” da política migratória. Repensaram nada.

Dirão que não se mistura política com esporte. Conversa fiada, e das mais safadas. Quem prega a separação é sempre quem está do lado da polícia. Copa em que os trabalhadores do estádio de Los Angeles votam greve por medo de o ICE levar seus companheiros no intervalo, em que torcedor assiste ao jogo olhando por cima do ombro, não é festa do futebol: é futebol confiscado, futebol sob fiança, futebol de tornozeleira.

Fifa e COI: o camarote como pátria

E a Fifa? A Fifa sorriu. Sorriu, aplaudiu e posou para a foto. Engoliu revista, algema e deportação com a mesma elegância com que, em 1972, o COI engoliu o sangue na Vila Olímpica. Cartola não tem lado: tem camarote. E camarote, como se sabe, tem vidro fumê – de dentro não se enxergam os camburões do estacionamento.

Agora o filme vai reprisar, e nem se deram ao trabalho de trocar o elenco. Em 2028, a Olimpíada será em Los Angeles, sob o mesmo governo Trump, a mesma imigração de cassetete, a mesma lista de países malditos, enquanto o COI jura, de dedinho em riste, que será diferente. Jurou o mesmo em Munique, antes de mandar a bola rolar por cima dos corpos. O barão morreu, mas deixou herdeiros. E os herdeiros prosperaram.

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O espetáculo como única pátria

O esporte não aprendeu nada porque nunca quis aprender: aprender custaria o espetáculo, e o espetáculo é a única pátria do cartola. Escreve aí, com o pé nas costas: enquanto houver camarote, a ordem será sempre a do barão: o espetáculo deve continuar. A pergunta que fica, meio século depois, é a que ninguém em Munique teve coragem de fazer e que Los Angeles fará questão de não ouvir: continuar para quê, e por cima de quem?

Apito Final!