Clube que revelou primeiro craque do Brasil proíbe futebol profissional
Clube que revelou primeiro craque do Brasil proíbe futebol

O Clube Atlético Ypiranga, fundado em 1906 em São Paulo por um grupo de trabalhadores, foi um dos principais clubes do futebol paulista no início do século XX. Protagonista ao lado de Corinthians, Paulistano (extinto), Germânia (extinto) e Palestra Itália (atual Palmeiras), conquistou três vice-campeonatos estaduais (1913, 1935 e 1936) e foi um dos fundadores da Federação Paulista de Futebol em 1941. No entanto, desde 1958, o clube abandonou o futebol profissional e, por decisão estatutária, o retorno é praticamente impossível.

O abandono do futebol profissional

Em 1958, o Ypiranga foi rebaixado para a segunda divisão estadual, perdeu seus investidores e teve que vender todos os seus principais jogadores. "O Ypiranga passou por alguns momentos difíceis no futebol e foi obrigado a vender quase todo o time profissional, que era um time de primeira linha, e acabou sucumbindo. E os empresários que investiam aqui, aqueles parceiros, deixaram de investir. O Ypiranga se licenciou da Federação Paulista por um período. Quando retornou, acabou sendo rebaixado e aí foi quando desistiu definitivamente do futebol", explicou Roberto Nappi, ex-presidente do clube.

Para evitar qualquer reversão, o estatuto do clube passou a vedar a manutenção de um Departamento de Futebol Profissional. O artigo 142 determina: "Fica vedado à Diretoria Administrativa do CAY, por si ou por terceiros, manter um Departamento de Futebol Profissional, salvo se vier a obter, por parte do Conselho Deliberativo, na forma contida neste Estatuto, a competente autorização."

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As tentativas de retorno e o estatuto

Quase sete décadas depois, as chances de retorno são remotas. Para alterar o estatuto, são necessários dois terços dos 120 conselheiros presentes e votando a favor em duas votações consecutivas. A idade avançada de muitos membros dificulta a formação de quórum. "Hoje o Estatuto proíbe o futebol profissional. Ainda somos um celeiro de craques, continuamos formando muitos atletas. Historicamente, estamos com jogadores desde 1906 até hoje, com muitos atletas, mas, profissionalmente, a gente não pode. Uma missão difícil. Nós tentamos, mas ainda não conseguimos", afirmou Fernando Oberle, outro ex-presidente.

Houve duas tentativas de retorno, em 2004 e 2020. Na última, o clube voltaria como uma SAF, com apoio do ex-jogador Jamelli, e incluiria a compra de um terreno vizinho para construir um estádio e um centro de treinamento. O projeto foi abortado devido à pandemia de Covid-19 e outros problemas. "Não dá para a gente pensar isso imediatamente. Não é impossível de acontecer. Eu acho que hoje, com a modernidade da gestão, com a SAF, com vários modelos de futebol profissional, não acho impossível. Mas, sim, é um sonho meu de ter o Clube Atlético Ypiranga, como fundador, voltando a ser um membro do futebol profissional", complementou Oberle.

O primeiro craque do Brasil: Arthur Friedenreich

Foi no Ypiranga que Arthur Friedenreich surgiu como o primeiro grande nome do futebol brasileiro. Até o surgimento de Pelé, o atacante era considerado o melhor jogador do país. Friedenreich construiu história no futebol amador, foi convocado para a seleção brasileira e marcou o gol do primeiro título sul-americano do Brasil, em 1919. "O Friedenreich nasceu no Ypiranga praticamente logo após a fundação do clube. Ele veio jogar para o Ypiranga, jogou alguns anos e foi considerado o maior artilheiro na época. Seria, entre aspas, o Pelé da época. Essa foi uma das glórias que a gente tem marcada", relembrou Nappi.

Outro jogador importante revelado pelo clube foi o goleiro Barbosa, marcado pela falha na final da Copa de 1950. Barbosa sofreu depressão e foi acolhido pelo Ypiranga nos últimos anos de vida. "Foi revelado aqui, jogou três anos e depois se transferiu para o Vasco da Gama, onde jogou por 20 anos. O Vasco, com ele, fez um grande sucesso na época, a ponto de ele ser convocado para a Copa de 1950, que foi, a meu ver, o maior desastre esportivo da história. Foi aquela Copa que acabou com a vida do Barbosa", disse Nappi.

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Como o clube sobrevive hoje

O Ypiranga mantém-se como clube social graças aos seus mais de 6,5 mil sócios, que pagam mensalidades e títulos. A sede ocupa mais de 30 mil metros quadrados em uma região privilegiada de São Paulo, com 13 modalidades esportivas, incluindo natação, basquete, judô, sinuca, futevôlei e squash. O futebol é praticado de forma amadora, com parceria com o Sfera FC para captação e formação de jovens atletas. O clube conta com 200 atletas militantes, isentos de mensalidade, que representam o clube em competições oficiais.

"A gente, lá na década de 50, deixou de ser um clube profissional de futebol e passou a ser um clube social. Desde então, fomenta a questão social. Então, hoje, a gente é um clube preponderantemente social: 30 mil metros quadrados de sede própria, com duas piscinas, um parque aquático formidável, campo de futebol, dois ginásios. Hoje, a gente tem toda uma estrutura social que consegue tratar bem o pessoal do bairro e quem mora aqui muito perto. O futebol de campo ainda é o nosso esporte, mas não é profissional. Eu acho que esse é o grande segredo de a gente estar de pé até hoje", finalizou Oberle.