Copa nos EUA: torcedora relata choque cultural e falta de clima de Mundial
Copa nos EUA: torcedora relata choque cultural e falta de clima

Quando meu marido e eu decidimos ir aos Estados Unidos para a Copa do Mundo de 2026, a expectativa era encontrar um torneio que tomaria o país inteiro. O que vimos foi algo bem diferente — e muito mais interessante de contar.

Primeiro impacto em Boston

A estreia do Brasil era no dia 13 de junho, no MetLife Stadium, em Nova Jersey. Como tínhamos alguns dias livres antes do jogo, aproveitamos para conhecer Boston, que também é cidade-sede do Mundial. A lógica era prática: não queríamos gastar férias em uma cidade que já conhecíamos. Então, por que não combinar Copa e turismo?

Boston fica a cerca de uma hora de avião de Nova York. E foi lá que tomamos o primeiro susto. A cidade basicamente não respirava Copa do Mundo. Havia uma bola gigante decorando uma praça perto do nosso hotel e alguns grupinhos de torcedores escoceses circulando pelas ruas — afinal, Escócia e Haiti jogariam em Boston no mesmo fim de semana. Mas clima de Copa? Nenhum.

Banner largo do Pickt — app de listas de compras colaborativas para Telegram

Para entender a dimensão disso, basta um episódio: pegamos um Uber, e o motorista não sabia em que dia era o jogo, quais seleções estavam na cidade nem sequer em qual estádio seria disputado. Quando mencionamos o Gillette Stadium — casa dos New England Patriots, uma das franquias mais icônicas do futebol americano —, ele ficou surpreso: achava que iam construir um estádio novo.

Se o motorista de Uber não sabe, ninguém sabe.

Comparação com o Brasil

A comparação que nos veio imediatamente foi com o Brasil. A gente já tinha ido a um jogo em Cuiabá, durante a Copa América — o fraco jogo entre Bósnia e Nigéria —, e mesmo assim a cidade estava irreconhecível. Cardápios temáticos nos restaurantes, adereços nas ruas, aquele burburinho inconfundível de evento global. Em Boston, cidade-sede de uma Copa do Mundo, nada disso. A Fan Fest oficial da FIFA estava de portas fechadas no meio da tarde.

Ficou claro também que o preço dos ingressos deixou uma impressão negativa na população local. Em mais de uma ocasião, pessoas pararam a gente na rua para perguntar quanto tínhamos pago. Um atendente de uma loja de conveniência, quando admitimos que foi caro, reagiu com um “um ano de aluguel?”. A gente deu risada e disse que não, mas a percepção de que a Copa era inacessível para o americano médio estava por toda parte.

Nova York: outra história

Nova York foi outra história. Chegamos na véspera do jogo, e a energia era completamente diferente. Participamos de um bandeiraço do Brasil na Times Square, que reuniu uma multidão enorme de brasileiros — e de não brasileiros também. Tinha torcedor marroquino, indiano, de vários cantos do mundo. A polícia montou um esquema especial de desvio para que a festa não bloqueasse o trânsito da cidade inteira. Depois começou a chover, e a torcida continuou cantando, sem arredar o pé.

Algo que a gente não esperava foi a quantidade de gente usando camisa do Brasil que claramente não era brasileira. Gringos de várias partes vibrando pela Seleção. Num restaurante em que jantamos — já de camisa verde e amarela, porque aqui a gente passou a andar só assim —, o garçom nos perguntou, animado, se iríamos ao jogo no dia seguinte. E o casal da mesa ao lado, de Los Angeles, tinha vindo especificamente a Nova York para ver o Brasil jogar. Moravam em LA, cidade que havia recebido jogo dos Estados Unidos naquele mesmo dia. Preferiram viajar para ver o Brasil.

Um detalhe revelador: o jogo dos Estados Unidos havia terminado com vitória por 4 a 1, mas o restaurante, cheio de americanos, não tinha uma televisão ligada na partida. Ninguém parecia se importar muito.

Curiosidades locais

Outra curiosidade: os nova-iorquinos não chamam o torneio de “World Cup”. Quando a gente andava fardado pela cidade, as pessoas abordavam com um simpático “você vai para a FIFA?”. Como se o evento fosse o nome da entidade, não do torneio.

O dia do jogo começou com a cidade visivelmente mais animada. A Penn Station, que serve de ponto de partida para o MetLife Stadium, ficou fechada exclusivamente para torcedores com ingresso a partir de certo horário. Passamos por três pontos de vistoria de segurança — checagem de ingresso, detector de metal e revista com cão farejador. Na saída, uma pulseira colorida servia como nosso bilhete de volta.

Banner pós-artigo do Pickt — app de listas de compras colaborativas com ilustração familiar

O jogo em si foi aquela decepção conhecida. Baita frustração.

A volta foi caótica. Cerca de uma hora e meia de confusão logística — filas que avançavam, paravam, recomeçavam —, e ainda tivemos que trocar o trem por ônibus no caminho de volta. Para completar, nossa rua estava fechada por causa do jogo dos Knicks. A região do Madison Square Garden, que fica a poucos quarteirões do nosso hotel, estava em polvorosa — mas pelo basquete, não pelo futebol.

E talvez seja esse o grande resumo desta Copa: para quem veio de fora, a experiência foi única. Para o americano médio, a Copa do Mundo de 2026 é um evento que acontece em outro lugar, mesmo quando acontece na esquina.