O primeiro homem trans a dar à luz na rede pública estadual da Paraíba, Daniel Valentim, enfrentou desafios de disforia de gênero durante a gestação. A bebê Iara nasceu no Hospital da Mulher, em João Pessoa, em junho de 2026. Daniel e sua esposa, Gisele Castro, também transsexual, interromperam a terapia hormonal para realizar o sonho da paternidade.
Desafios da disforia de gênero na gestação
Daniel, estudante de agronomia, relatou que a gestação foi considerada de risco devido a um diagnóstico de trombose. Além disso, a disforia de gênero foi agravada pelas mudanças físicas. “Eu não conseguia me olhar no espelho porque eu via meu quadril mais largo, a barriga crescendo. Mesmo sendo mastectomizado, o meu peito cresceu, inclusive vou ter que refazer essa cirurgia”, disse. A condição de disforia é caracterizada pelo sofrimento causado pela incompatibilidade entre identidade de gênero e características físicas.
Daniel encontrava forças ao lembrar que tudo era pela filha. “Quando eu olhava para o meu corpo, que eu via o quadril alargando, o peito crescendo, eu olhava para a barriga e fazia assim: ‘é pela minha filha, isso vai passar, depois eu resolvo isso’. Então, até me emociono quando eu falo essas coisas”, afirmou.
Interrupção da hormonioterapia e tentativa anterior
Gisele Castro também precisou interromper os hormônios após mais de 15 anos de tratamento. “O sistema reprodutor se modifica após a utilização dos hormônios, mas essa modificação pode ser revertida a partir de um acompanhamento médico; foi o que aconteceu com a gente”, explicou. O casal tentou engravidar em 2022, mas a disforia os fez adiar o plano. “Eu não aguentava mais por conta da disforia. Minha barba tinha caído, já não tinha quase nenhum pelo no rosto”, lembrou Daniel.
Em 2025, o casal conseguiu engravidar. Gisele contou que não esperava que Daniel engravidasse tão rápido. “A gente combinou de fazer o exame de urina juntos. Só que aí teve um dia em que o Daniel, com a ansiedade muito alta, foi à farmácia e fez. (...) Quando eu abri, era uma fralda e o exame positivo. Então, foi uma emoção muito grande”, relatou.
Pré-natal e parto no Hospital da Mulher
Daniel iniciou o pré-natal em Campina Grande, mas buscou um ambiente mais seguro e encontrou o Hospital da Mulher, em João Pessoa, que já realizava cirurgias de mastectomia em homens trans. Com ajuda do Ambulatório TT Fernanda Benvenutty, o casal transferiu o pré-natal no oitavo mês. “Apesar de ter tido um pré-natal muito tranquilo em outra unidade, eu sentia que o lugar ideal para o nascimento de Iara era o Hospital da Mulher, não apenas pela estrutura. O carinho dos profissionais, o acolhimento, a segurança com a qual todo o procedimento foi conduzido apenas confirmaram esse sentimento. Foi um parto cercado de amor e respeito”, afirmou Daniel.
Olhares de estranhamento e preconceito
Daniel enfrentou situações de estranhamento durante a gestação. “Eu me recordo de uma situação em que eu fui comprar pão e a barriga já estava bem aparente. E aí a moça da padaria olhou para mim, olhou para a barriga e fez um olhar bem assim estranho. Isso me atravessou de uma forma grande”, descreveu.
Família baseada em amor e respeito
Para Gisele, a história da família mostra que casais LGBTQIAP+ podem oferecer um ambiente saudável para criar um filho. “Às vezes, você tem um casal que a gente chama de heteronormativo, mas que tem violência, que tem traição, que tem várias coisas ruins e que deixa a desejar no sentido do amor, no sentido da fraternidade, no sentido da união e do respeito. E que a gente quer mostrar que não precisa ser heterossexual e cis, homem cis e mulher cis, para ter uma família”, concluiu.



