Paulistano da zona leste, até 2017 Eronildo Luiz de Campos trabalhava em uma gráfica como impressor e praticava ciclismo nas horas de lazer. Ele até desconfiava da sanidade mental dos corredores de rua. Por acaso, foi levar um amigo a uma corrida de 10 km, no Parque Ecológico do Tietê, e acabou sendo convidado a correr de última hora. E, sem nunca ter corrido na vida, finalizou abaixo dos 45 minutos! Pegou gosto, estudou massoterapia, começou a atuar como terapeuta, foi fazendo a transição de carreira. Resolveu finalizar a graduação de Educação Física, que havia trancado anos atrás, e se formou durante a pandemia. Focou nas ultramaratonas e a meta para este ano é bem ousada: representar o Brasil na pior ultramaratona do mundo, a Spartathlon, com largada na Acrópole de Atenas e chegada na estátua do rei Leônidas, em Esparta.
Para disputar essa prova, o atleta tem que ser convidado, depois de comprovar que já correu 225 km, ou participar da loteria, desde que tenha o índice. São apenas 388 vagas e Luiz foi um dos 27 brasileiros aceitos, e está captando recursos financeiros para custear as passagens aéreas e pagar a inscrição. A largada será em 26 de setembro. Ele tem o prazo até 10 de junho para concluir a inscrição da 44ª Spartathlon, que custa 1.250 euros, incluindo hotel e refeições. Por enquanto, 226 atletas efetuaram a inscrição.
A transformação pela corrida
As ultras ressignificaram a vida dele. "Sou outra pessoa depois que comecei a correr, principalmente ultramaratona. A parte esportiva e a familiar mudaram muito para mim, mudaram para melhor. Sou uma pessoa muito mais calma, minha cabeça mudou bastante. Tudo que eu já conquistei, os troféus que eu tenho, é porque eu vou buscar. Porque eu acordo cedo, me dedico, então você acaba virando até uma espécie de referência de resiliência, de superação, no meio da sua família e no trabalho", pontua.
Luiz, 52 anos, mora em Itaquera e é professor de Educação Física em três projetos: uma ONG no Tatuapé, onde ensina futebol de salão para crianças especiais; dá aula de fortalecimento para idosos na Mooca; e também dá fortalecimento para idosos no CEU Heliópolis. E treina para as ultramaratonas, que compete em quase todo fim de semana. Das corridas de rua de 21 km, ele pulou direto para as ultras, e para encaixar os treinos na rotina diária, ele acorda às 4 da manhã para correr e depois fazer fortalecimento, para antes das 9h estar no trabalho. "Me identifiquei muito com o pessoal da ultra, são muito solidários, é uma galera que um ajuda o outro. Existe sim a competição, mas também tem muito respeito", compara. E o sonho dele é correr a Spartathlon.
A história da Spartathlon
Essa prova é inspirada em Fidípides, que na Grécia antiga (490 a.C.) era um dos hemeródromos mais conceituados. Hemeródromo era o nome dado ao mensageiro que fazia as entregas das mensagens correndo a pé centenas de quilômetros por toda a Grécia. Um dos trajetos mais frequentes era entre Atenas e Esparta, distantes 246 km, e ele demorava cerca de 36 horas para fazer esse trajeto, usando sandálias de couro. Para testar se esse feito seria humanamente possível, em 1982, um maratonista e comandante da RAF britânica, John Foden, e mais quatro colegas decidiram correr o mesmo trajeto. Eles conseguiram e, no ano seguinte, começou a ser realizada a ultramaratona Spartathlon. A primeira edição teve 45 atletas de 11 países. Trinta e três anos depois, em 2016, competiram 400 atletas de 40 países.
Apenas um brasileiro já venceu esta prova: o santista Valmir Nunes em 2001, com o tempo de 23 horas e 18 minutos. Na edição de 2003, Nunes chegou em segundo; e em 2007, em terceiro. A prova tem que ser completada em até 36 horas; se ultrapassar esse tempo, o atleta é desclassificado. O brasileiro que mais vezes completou essa pedreira é o capixaba Carlos Gusmão, seis vezes até 2024. E Luiz Ultra quer entrar para esse seleto grupo.
Brasileiros na Spartathlon 2024
No ano passado, os subtenentes Marcelino e Ribeiro foram os primeiros bombeiros militares brasileiros a concluir a prova. Eles são fluminenses. Marcelino já fez 70 ultras, entre elas a Bad 135 World Cup, e o subtenente Ribeiro acumula títulos nas ultramaratonas de 12 horas de Niterói e de 6 horas de Campinas (SP). Em 2025, foram 11 brasileiros (duas mulheres e nove homens); sete homens e uma mulher conseguiram concluir. O mais rápido foi Tiarles Santos, com o tempo de 31:49:31. Ele é natural de Santo Antônio da Patrulha e foi o primeiro brasileiro a completar quatro edições consecutivas da Spartathlon. No total, dos 394 inscritos, 351 largaram e 246 concluíram. Concluir já é um feito e tanto.
Inspiração entre os ultras
Entre os ultras, Luiz admira muito Valdenir Jandosa. Nascido em São Paulo e profissional de TI, ele se consolidou internacionalmente no esporte ao conquistar grandes títulos, entre eles a 4ª colocação no Spartathlon. "Ele chegou a fazer 260 km em uma prova de 24 horas. É um cara muito forte", conta Luiz.
Conhecida por ser a corrida mais cansativa do mundo, o percurso é bem técnico e exige muito dos participantes: tem pedregulhos, caminhos enlameados, travessia de vinhedo e campos de oliveiras; e para finalizar com chave de ouro, uma subida de 1.200 metros e descida do Monte Parthenio na calada da noite. Esse monte, coberto com pedras e arbustos, foi onde Fidípides teria conhecido o deus Pã (deus da natureza e protetor dos pastores).
Treinos e preparação
Após ser aceito para a Spartathlon, em abril, Luiz já começou os treinos específicos em maio, com muito fortalecimento e rodagem progressivas. A primeira foi um longão de nove horas. "Estou treinando para finalizar a prova em 30 horas. No total, vou passar por 75 postos de controle. Se o atleta quiser dormir ou descansar um pouco, ele consegue nesses pontos. Lá você pega a sua sacola com seu equipamento e suas coisas. Vamos supor: quero pegar minha lanterna no km 80, pego na sacola nesse posto. Esfriou, preciso de uma roupa mais quente, pego no posto do km 100. E pretendo correr direto, sem parar para descansar ou dormir", conta.
No ano passado, ele venceu a UAI de 235 km em 38 horas. "Lá fui direto. Apesar de ser nove quilômetros mais curta, a altimetria da UAI é ainda pior que a da Spartathlon, tem mais subidas, mas já fiz esse ultra pensando na Grécia", explica.
Equipamento e patrocínio
O quesito calçado esportivo é outro desafio. A maioria deles dura no máximo 600 km, o que para um ultramaratonista pode ser no máximo um mês. "Uso um tênis misto, que tem hastes de placa de carbono, não é uma placa inteira, e com mais amortecimento. Comprei um da marca Skechers. Ele amortece e também impulsiona. Tênis com placa inteira fica muito duro, muito rígido, e a ultramaratona não é uma prova para você fazer muito rápido. E, geralmente, eu gosto de usar tênis que tem aquela base mais larga, que tem mais estabilidade. O Jandosa me indicou o Corre Turbo da Olympikus. Lá na Grécia, devo largar de bermuda de compressão com bolsos, porque vai estar sol, mochila de hidratação, óculos escuros e boné; e vou deixar uma legging depois de 160 km", elenca Luiz. Agora só falta o patrocínio. Para entrar em contato com o atleta, mande mensagem DM do perfil do Instagram @luizultrateam.
Principais títulos de Luiz Ultra
- 2017: 12 km Guarani Race - campeão categoria 40/49 anos; 21 km Ladeiras Guararema - campeão categoria 40/49 anos
- 2018: 12 km Los Pannas - campeão (categoria 40/49 anos)
- 2019: 67 km Trail Run Caminho de Minas - 3º colocado categoria 40/49; 42 km Desafio 28 praias - 5º lugar no revezamento
- 2022: 282 km MCK Caminho de Aparecida - campeão; 60 km Festival Guarulhos - campeão; 564 km Double MCK - campeão
- 2023: 470 km Double Uai Ultra dos Anjos - campeão
- 2024: 160 km Theark - campeão; 201 km Intercontinental Mar del Plata (ARG) - vice-campeão
- 2025: 160 km Theark - campeão; 70 km Roots Itaberaba - campeão; 100 km Ultra Paranapiacaba - campeão; 235 km UAI Ultra dos Anjos Reverse - campeão; 240 km Br150 milhas - 5º colocado (2º melhor brasileiro)
- 2026: 57 km Menino da Porteira - campeão
Requisitos para correr a Spartathlon
- a) Ter percorrido a distância de pelo menos 120 km para homens ou 110 km para mulheres em uma corrida de 12 horas.
- b) Ter completado uma corrida de 120 km em até 12 horas, tanto para homens quanto para mulheres.
- c) Terminar a corrida de 100 milhas em até 21h para homens ou 22h para mulheres.
- d) Terminar a corrida de 100 milhas de Western States em até 24h para homens ou 25h para mulheres.
- e) Ter percorrido a distância de pelo menos 180 km para homens ou 170 km para mulheres em uma corrida de 24 horas.
- g) Ter completado uma corrida sem paradas de 200-220 km em até 29h para homens ou 30h para mulheres.
- h) Ter terminado a corrida UltraBalaton de 211 km em até 29h para homens ou 30h para mulheres.
- i) Ter completado uma corrida sem paradas de mais de 220 km em até 36h para homens ou 37h para mulheres.
- j) Terminar a corrida Badwater em até 39h para homens ou 40h para mulheres.
- k) Terminar a Grand Union Canal Race em até 34h para homens ou 35h para mulheres.
- l) Terminar a corrida Sakura Michi de 250 km em até 36 horas.
- m) Terminar a Yamaguchi 100 Hagi-O-Kan Maranic de 120 km em até 12h, tanto para homens quanto para mulheres.
- n) Ter percorrido a distância de pelo menos 280 km para homens ou 260 km para mulheres em uma corrida de 48 horas.



