O Palco João Rock, em Ribeirão Preto (SP), foi tomado por uma sonoridade que desafia rótulos na noite deste sábado (1º). Com um repertório que costurou a psicodelia do rock dos anos 1970 com o repente e o forró nordestino, Alceu Valença abriu sua apresentação com Que grilo dá, faixa do álbum Mágico (1984). A canção, um verdadeiro quebra-cabeça de rock psicodélico, já entregou ao público a proposta do show: provar que a estética roqueira e as tradições musicais do Nordeste podem caminhar juntas.
Rock psicodélico e repente na abertura
A sequência inicial não deixou espaço para respiro. Em seguida, Alceu Valença apresentou Agalopado, do disco Espelho Cristalino (1977), unindo guitarras pesadas a uma batida veloz que remetia ao rock progressivo da década de 1970. O resultado foi uma ponte direta entre a cultura nordestina e a sonoridade psicodélica que marcou geração.
Na mesma toada, o pernambucano transformou Pagode Russo, clássico de Luiz Gonzaga, em um rock cadenciado por flauta e sanfona. A releitura manteve a essência do Rei do Baião, mas ganhou roupagem elétrica, aproximando o público jovem do festival da tradição musical nordestina.
Entre uma faixa e outra, Alceu conversou com a plateia e criou momentos de cumplicidade. Ele convidou o público para embarcar em um "trem imaginário" antes de executar Estação da Luz, frevo de sua autoria que atravessou o país e chegou com força ao interior paulista.
Sucessos, forró e guitarra sem perder a melancolia
A viagem musical ganhou contornos de grande celebração quando Alceu Valença entoou Girassol. A plateia cantou de forma uníssona, e a canção serviu de ponto de partida para uma sequência dedicada ao forró. Flor de Tangerina foi apresentada em sua forma mais pura, enquanto Pisa na Fulô ganhou o acompanhamento marcante de uma guitarra, que se manteve presente ao fundo durante Como Dois Animais.
O clima festivo, porém, não impediu que o cantor mostrasse sua face mais introspectiva. Em Solidão, Alceu entregou uma performance carregada de melancolia, com direito a um longo solo de guitarra que emocionou o público. O contraste entre a euforia do forró e a densidade da canção reforçou a versatilidade do repertório apresentado no Palco João Rock.
Na reta final, Alceu voltou a propor uma viagem lúdica com Táxi Lunar, pedindo palmas para os parceiros Geraldo Azevedo e Zé Ramalho, que fazem parte desse sucesso com ele. Em seguida, o cantor fez o público cantar de forma improvisada. "Agora vamos viajar para Boa Viagem", anunciou antes de engatar La Belle de Jour, sucesso de 1992. A plateia respondeu com tanta intensidade que parecia pronta para assumir os vocais no lugar do artista.
A celebração continuou com Morena Tropicana, antes do encerramento definitivo.
Encerramento com Anunciação e apelo político
A despedida ficou por conta de Anunciação, canção que ganhou forte apelo político durante o período de redemocratização brasileira e se tornou um símbolo do fim da ditadura militar. Enquanto a plateia cantava cada trecho, Alceu Valença reforçou o caráter coletivo do momento: "A voz do povo é a voz de Deus", afirmou, já se preparando para deixar o palco.
O show de Alceu Valença foi um dos momentos mais emblemáticos do festival, que reuniu 65 mil pessoas em Ribeirão Preto. Ao unir o peso do rock à cadência do repente e à tradição do forró, o cantor pernambucano reafirmou seu papel como um dos grandes nomes da música brasileira, capaz de dialogar com diferentes gerações e estilos.



