Jão lançou na noite de 26 de julho o aguardado quinto álbum de estúdio, 'Memórias póstumas', obra que mergulha no luto pela morte do pai e na intimidade do relacionamento com o parceiro Pedro Tófani. Com cotação de 4,5 estrelas, o disco mostra um artista mais interiorizado, que abandona a grandiosidade dos trabalhos anteriores para expiar dores reais.
Luto e inspiração
O álbum é atravessado pela morte de Carlos Alberto Balbino, pai de Jão, falecido em 3 de junho de 2025, aos 61 anos, vítima de arritmia. O hiato que Jão havia anunciado em janeiro de 2025 se transformou em um período de processamento da perda. 'A morte já me levou tanto e ainda pede mais', canta o artista na faixa de abertura 'Catedral', uma música aliciante que já define o tom confessional do trabalho.
O título do álbum faz referência ao romance 'Memórias póstumas de Brás Cubas', de Machado de Assis, e a estrutura narrativa segue um fluxo de memórias e sentimentos crus. Jão compôs a maioria das 14 faixas sozinho ou em parceria com Pedro Tófani, que também é autor exclusivo da canção 'João', uma balada onde o cantor explora regiões agudas do falsete.
Sonoridade e produção
O violão assume papel central em canções como 'Literatura', enquanto a produção, geralmente dividida com Zebu, evita fórmulas do pop brasileiro. A balada 'Eu sempre volto', com cordas arranjadas por Érica Silva, traz versos vulneráveis: 'Eu quase sempre choro pra dormir lembrando do que eu era antes'. Já 'Aurora' mescla canto a capella com uma leve batida funkeada, mostrando que a introspecção não exclui o suingue.
O veterano Marco Mazzola participa da produção de 'O amor', faixa de toque oriental que busca um ápice épico, mas mantém a atmosfera íntima. 'Memórias póstumas' também flerta com o rock oitentista em 'Jabuticabeira' e 'Passeios noturnos', coerente com a sonoridade do álbum anterior 'Super'.
Relacionamento como matéria-prima
Embora o luto seja o fio condutor, o amor é a matéria-prima central. Canções como 'Coincidências' e 'O arquiteto' se alimentam do cotidiano da relação com Pedro Tófani, assim como 'Tudo me lembra', que aborda inseguranças vividas em São Paulo. Jão transforma experiências pessoais em narrativas universais, e a ausência de feats nas 14 faixas reforça a individualidade do projeto.
Na segunda metade do álbum, a sequência de baladas pode dar impressão de repetição, mas o pique criativo não se perde. A faixa 'Curioso', por exemplo, mantém a qualidade lírica. Já a sétima faixa, 'Jabuticabeira', quebra a sonoridade com beats sintetizados e termina em clima folk, demonstrando versatilidade.
Encerramento emocionante
O disco se encerra com a faixa-título, onde se ouvem risadas e a voz do pai de Jão, conectando o fim ao começo. 'Memórias póstumas' é um álbum que tangencia a perfeição, como define a crítica, e confirma Jão como um dos maiores nomes da música brasileira do século XXI. Ao remexer na ferida do luto e no cotidiano do amor, o artista entrega canções honestas que ecoam sentimentos comuns a todos.



