O cantor, compositor e pianista carioca Ivan Lins, de 81 anos, lançou no dia 24 de julho de 2025 o álbum 'Sambadouro', seu 46º trabalho de estúdio, idealizado para celebrar os 80 anos completados em 16 de junho. O disco reúne 12 faixas, sendo 11 regravações de sambas autorais e uma inédita, 'Maravilhado', parceria com Ronaldo Monteiro de Souza. Apesar da intenção original de aproximar seu samba do universo dos pagodes cariocas, o resultado se mantém fiel à MPB que consagrou o artista.
A tentativa de aproximação com o pagode
Em entrevista, Ivan Lins revelou que alimentava o sonho de ver seus sambas tocados como se ele morasse em Madureira, bairro do subúrbio carioca berço de grandes bambas. No entanto, os três singles lançados entre fevereiro e junho de 2025 – a faixa-título 'Sambadouro' (1992), 'Diplomação' (2001) e 'Deixa eu dizer' (1973) – indicaram que a tentativa não seria totalmente bem-sucedida. Mesmo com a participação de Zeca Pagodinho em 'Diplomação', o álbum não abandona a cadência particular de Ivan, que sempre incorporou bossa nova, soul e jazz ao seu samba.
Participações de peso
'Sambadouro' conta com sete convidados especiais, todos atuando em faixas que se beneficiam da química com o anfitrião. Além de Zeca Pagodinho, participam Ferrugem (em 'Deixa eu dizer'), Diogo Nogueira (em 'Porta entreaberta'), Mart'nália (em 'Sou eu'), Xande de Pilares (em 'Saravá! Saravá!'), Péricles (em 'Não tem perdão') e Hamilton de Holanda (em 'Parei contigo'). O álbum foi gravado em maio de 2025 no estúdio Cia. dos Técnicos, no Rio de Janeiro, com produção de Marcus Fernando e arranjos de Rafael dos Anjos.
Destaques do repertório
Entre as regravações, merecem atenção 'Prece ao samba' (2006), pérola em tom menor com letra de Nei Lopes que dialoga com a 'Oração de São Francisco', e 'É de Deus' (1995), que desliza suave por uma gafieira com sopros marcantes. 'Sou eu', parceria com Chico Buarque, ganha nova dimensão na voz de Mart'nália, que subverte o sentido original da letra ao cantá-la como mulher assumidamente lésbica. Já 'Porta entreaberta', com Diogo Nogueira, recebe uma segunda chance merecida, assim como 'Parei contigo', que evoca a sonoridade de Baden Powell graças ao bandolim enérgico de Hamilton de Holanda.
A inédita 'Maravilhado'
Única faixa inédita do álbum, 'Maravilhado' fecha o disco com uma batucada aliciente e faz jus ao título, soando como uma maravilha contemporânea. A composição, em parceria com Ronaldo Monteiro de Souza, convida o ouvinte a seguir o bloco de Ivan Lins. A capa do álbum, inspirada em uma foto da casa de Tia Ciata – matriarca ativista do samba carioca – reforça a homenagem às raízes do gênero.
Com 'Sambadouro', Ivan Lins reafirma seu lugar no panteão da MPB, sem efetivamente pôr os pés no chão dos pagodes, mas confirmando-se como bamba em um mosaico de sambas que atravessam o Rio de Janeiro.



