Baterista do The Doors revela influência da bossa nova em 'Break On Through'
Baterista do The Doors fala sobre bossa nova em hit

John Densmore, baterista do The Doors, concedeu entrevista exclusiva ao Estadão sobre seu livro de memórias 'Riders On The Storm', recém-lançado no Brasil pela editora Belas Letras. Aos 79 anos, direto de Los Angeles, o músico falou sobre a influência da bossa nova em seu estilo, o comportamento autodestrutivo de Jim Morrison e sua carreira como escritor.

Bossa nova como inspiração para 'Break On Through'

Densmore revelou que a bossa nova, em ascensão nos Estados Unidos na época, foi fundamental para a criação do hit 'Break On Through'. 'Quando os Doors estavam ensaiando pela primeira vez, a bossa nova estava vindo do Brasil. Nós ficamos impressionados com Gilberto Gil (embora tenha dito Gilberto Gil, possivelmente se referindo a João Gilberto). 'Garota de Ipanema' foi um grande sucesso aqui', contou. 'Eu não podia acreditar como o ritmo era relaxado, mas profundo. Todos os bateristas aprenderam o ritmo da bossa nova. Então pensei: vou pegar esse ritmo e torná-lo mais rápido e rígido para se encaixar em 'Break On Through'. E foi o que fiz. Obrigado, Brasil!'

Processo criativo com Jim Morrison

O baterista explicou como a poesia de Morrison guiava sua bateria. 'As palavras do Jim meio que me diziam como tocar. No início, ele era muito tímido, mas Ray Manzarek e eu amávamos jazz e bossa nova. Jim não sabia tocar instrumentos, mas tinha as palavras e melodias. Nos ensaios, ele cantava a cappella e nós criávamos os arranjos juntos', disse. 'Foi por isso que Jim insistiu em creditar toda a música como 'escrita pelos Doors', algo muito generoso.'

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Transição para a escrita

Densmore tornou-se escritor renomado, com artigos em veículos como The Guardian e L.A. Times. 'Livros levam tempo. Primeiro tive um ghostwriter, mas não era minha voz. Lutei para escrever sozinho. Lancei 'Riders on the Storm' na época do filme de Oliver Stone. Escrevi um artigo sobre vender músicas para comerciais que viralizou. Agora estou confiante como escritor. É um processo longo, mas posso fazer sozinho no meu escritório.'

Influência no filme de Oliver Stone

O livro serviu de base para a cinebiografia de 1991, estrelada por Val Kilmer. 'Dei a Oliver a prova final do livro e pedi um agradecimento nos créditos. Ele usou cerca de 10% no roteiro. Quando o filme saiu, colocou 'Obrigado ao livro do John Densmore' logo após o crédito de Val Kilmer. Uma semana depois, o livro virou best-seller do New York Times', recordou.

Visão sobre o filme

Densmore vê o filme como uma 'pintura impressionista' e acha que Val Kilmer deveria ter sido indicado ao Oscar. 'O filme não foi tanto sobre os anos 60, mas sobre o artista torturado. O documentário 'When You're Strange' (2009) representa melhor a banda.'

Frase polêmica e luto

Sobre a frase 'Nietzsche matou Jim Morrison', Densmore explicou: 'Foi emoção. Sinto falta do grande letrista, mas ele tinha tendências autodestrutivas. Desabafei por frustração e tristeza.' Ele levou três anos para visitar o túmulo de Morrison. 'Havia ressentimento e raiva, o que chamo de amor difícil. Levei anos para lamentar e perceber a bênção de fazer música com alguém no topo com Dylan.'

Momento mais assustador

Densmore compartilhou um episódio: 'Levei Jim ao apartamento de uma amiga e, quando voltei, havia maconha na mesa e ele brincava com uma faca de cozinha. Pensei: 'Nosso vocalista é um psicótico'. Felizmente, não fez nada.' Ele acrescentou: 'Jim gostava de pressionar as pessoas para ver como reagiriam.'

Outros projetos musicais

O baterista tem três autobiografias, incluindo 'The Seekers: Meetings with Remarkable Musicians', com capítulos sobre Patti Smith, Elvin Jones, Ravi Shankar e Bob Marley. 'Tenho um background eclético. Estive na Jamaica antes do reggae chegar aos EUA. Robby e eu estudamos música indiana. Ray e eu amávamos jazz. Em 'L.A. Woman', adotamos a filosofia de Miles Davis: 'danem-se os erros'.'

Criação de 'Riders On The Storm'

Sobre a faixa que batiza o livro, Densmore disse: 'Improvisamos no estúdio e transformamos 'Ghost Riders In The Sky' em 'Riders On The Storm'. Busquei o som dos pratos de 'All Blues' de Miles Davis, com Jimmy Cobb. Um som melancólico. Nos divertimos inserindo sons de trovão e chuva. Foi muito divertido.'

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