A banda Bebé Pacheco e Ubandu, criada em 2022, escolheu a Estação Ferroviária de Bauru para selar sua despedida dos palcos. O projeto audiovisual será lançado no canal do grupo no YouTube em 7 de agosto e reúne quatro músicas inéditas, além de um bate-papo entre os integrantes. A formação tem Ed Florindo na percussão, Julio Calleja na guitarra, Adriel Dias na bateria, Adriano Martins no baixo e Bebé Pacheco nos vocais.
A apresentação integra as homenagens ao aniversário de 130 anos de Bauru, celebrado neste sábado (1º), com shows de Dilsinho e Ana Castela e o tradicional “bolo” coletivo. O quarteto, no entanto, preferiu um cenário mais simbólico para o encerramento: o antigo prédio ferroviário, que permanece lacrado desde 2021 por decisão do Ministério Público, mas segue como um dos endereços mais afetivos da cidade.
Memórias de família guiam a escolha
Em entrevista ao g1, Bebé Pacheco explicou que a vontade de gravar na estação nasceu das recordações de infância. “Meu avô, João Pereira, foi maquinista na Estação, até se aposentar. Minha mãe, tias e tios sempre me contam muitas histórias que viveram ali”, disse a vocalista.
A localização também importa: a estação fica próxima à Praça Kaingang, área que remete aos povos originários da região. Para Bebé, unir música e memória é uma forma de olhar para o passado e valorizar a cultura produzida em Bauru. “É uma forma de trazer luz a essa história bauruense que faz parte de nossas raízes, para olharmos ao passado como forma de construir um futuro de mais prosperidade para a cultura aqui produzida”, acrescentou.
Coletividade inspira nome do projeto
O nome do grupo carrega o conceito africano de Ubuntu, que pode ser traduzido como “eu sou porque nós somos”. A banda afirma que essa ideia de coletividade está presente tanto na convivência do quarteto quanto na relação com o patrimônio histórico municipal. “Esse patrimônio histórico municipal é presente na história de muitas pessoas dessa cidade, e nos forma enquanto cidadãos bauruenses”, afirmou Bebé.
A formação também demonstra preocupação com a alteridade, ou seja, com a capacidade de se colocar no lugar do outro. A vocalista reforça que a identidade local foi construída muito antes da chegada dos bandeirantes. “A praça [Kaingang] mantém viva a importância de reconhecer as raízes indígenas presentes na cultura, na paisagem e na própria história do povo”, definiu.
Estação abandonada há décadas
O palco da despedida está longe de funcionar como nos tempos áureos. A Estação Ferroviária de Bauru deixou de operar trens em 1994 e foi comprada pela Prefeitura em 2009 por aproximadamente R$ 6 milhões. Desde 2021, o prédio está lacrado por problemas estruturais apontados pelo Ministério Público, que proibiu a circulação de pessoas no local.
Na década de 1980, Bauru chegou a concentrar operações da Sorocabana, da Noroeste do Brasil e da Companhia Paulista, com ligações diretas ao Porto de Santos e à capital paulista. Hoje, porém, o prédio não integra mais a linha férrea e está desvinculado da operação ferroviária atual, quase inexistente na cidade.
Revitalização e novas esperanças para o espaço
Em junho de 2026, a prefeita Suellen Rosim (PSD) anunciou o Programa “Novo Centro”, um pacote de ações para revitalizar a região central de Bauru. A proposta inclui a restauração da Estação Ferroviária, com investimento superior a R$ 100 milhões. Entre 16 de junho e 16 de julho, a Prefeitura abriu consulta pública para auxiliar na requalificação do patrimônio.
A reportagem do g1 procurou a Prefeitura de Bauru para saber como está o andamento do projeto, mas não recebeu retorno até a última atualização desta matéria.
Enquanto isso, o setor ferroviário começa a ganhar novos contornos. Em julho de 2024, a Rumo, empresa responsável pela malha, iniciou obras para reativar o ramal Bauru-Panorama, com previsão de conclusão em 2028. A Prefeitura também encomendou um estudo para avaliar a implantação de um VLT, um veículo leve sobre trilhos movido a energia elétrica, voltado ao transporte municipal.
No meio desse cenário de transformação e abandono, a banda Bebé Pacheco e Ubandu transforma a estação em palco de uma última apresentação. O registro, que sai do ar? Não. Que será lançado em 7 de agosto, promete eternizar a união entre música, memória e ancestralidade em um dos espaços mais emblemáticos de Bauru.



