Lançado em 16 de julho de 1956, 'Grande Sertão: Veredas' completa 70 anos como um dos romances mais importantes da literatura brasileira. Embora a história se passe no sertão entre Minas Gerais e Bahia, a cerca de mil quilômetros do Rio de Janeiro, foi na capital fluminense que João Guimarães Rosa escreveu grande parte da obra e encontrou inspirações para personagens, paisagens e reflexões que marcaram sua literatura. A reportagem do RJ2 reconstituiu os caminhos percorridos pelo escritor na cidade onde viveu por quase duas décadas.
Inspiração nos transportes cariocas
Para o pesquisador Leonêncio Nossa, entender Guimarães Rosa passa por seguir seus deslocamentos cotidianos. 'Ele se inspirava dentro de ônibus. Não era em carro. Metrô nem tinha. Ele gostava de andar de ônibus pela cidade', afirma. Além dos ônibus, Rosa também recorria às barcas Rio-Niterói para pensar. Segundo o neto do escritor, João Guimarães Rosa, sempre que precisava refletir sobre alguma decisão, embarcava durante o horário de almoço, atravessava a Baía de Guanabara e voltava logo em seguida.
Copacabana: onde nasceu 'Grande Sertão: Veredas'
O Rio de Guimarães Rosa começa e termina em Copacabana. Foi no Edifício Ícaro, na Avenida Francisco Otaviano, de frente para o mar, que o escritor, médico e diplomata viveu seu período mais produtivo. 'Foi naquele apartamento que ele escreveu Grande Sertão: Veredas. Pouco antes, havia feito a famosa viagem pelo sertão, e já morava ali', conta o neto. O detalhe chama atenção: um dos maiores romances sobre o sertão brasileiro foi escrito tendo como paisagem a orla carioca. Segundo Leonêncio Nossa, a localização do apartamento também dialogava simbolicamente com a obra. 'O apartamento dava para os fundos da Praia do Diabo - aquela praia entre Copacabana e Ipanema. O diabo é essa figura que vai atormentá-lo e inspirar toda a obra. Ele estava sempre ali, enfrentando esse diabo que ficava em frente à casa.'
Personagens do cotidiano da cidade
Setenta anos depois da publicação, 'Grande Sertão: Veredas' segue entre os livros mais procurados nas livrarias. Funcionários relatam que os exemplares costumam se esgotar rapidamente. Embora a narrativa aconteça no interior do país, Leonêncio Nossa acredita que muitos personagens nasceram da observação da vida carioca. Quando voltou definitivamente da Europa, no início dos anos 1950, Guimarães Rosa encontrou uma cidade marcada pela chegada de migrantes nordestinos e do interior de Minas Gerais. 'Era um Rio efervescente, capital de um país em busca da modernidade, mas também muito sertanejo. Muita gente do interior fazia a vida aqui. Esse foi o Rio que ele encontrou.' Segundo o pesquisador, até o nome do protagonista teria origem carioca. 'Riobaldo era o nome de um jornalista do Rio de Janeiro. Ele achou bonito e adotou.'
Diplomata, observador e apaixonado pelos bichos
Além da literatura, Guimarães Rosa conciliava a carreira diplomática com uma curiosidade permanente pelo comportamento humano e animal. Frequentava o Zoológico da Quinta da Boa Vista, onde passava horas observando rinocerontes, macacos e outros animais em busca de detalhes para suas descrições literárias. No horário de almoço, também caminhava pelos jardins do Palácio do Itamaraty, onde dava expediente como embaixador. O edifício preserva uma placa ao lado de uma palmeira com um pequeno poema escrito por ele em 1953: 'Aquela palmeira ali / tanto quis, tanto cresceu / ficou mais longe da terra / ficou mais perto de Deus.' Mesmo quando recebia carona para casa, preferia percursos mais longos. 'O caminho mais fácil era seguir pela Zona Sul. Mas ele pedia para passar pelo Alto da Boa Vista e pela Estrada das Canoas. Cercado de matas e montanhas, era onde se sentia mais em casa. De certa forma, o Alto da Boa Vista era Minas Gerais para ele', explica Leonêncio.
A posse na ABL e a despedida
Guimarães Rosa foi eleito para a Academia Brasileira de Letras em 1963, mas adiou a cerimônia de posse por quatro anos. João Guimarães Rosa, que tinha 10 anos na época, lembra do momento e do fardão do escritor. 'Existe uma foto muito importante para a nossa família. Ele nos abraça, cercado de pessoas com fardão. Acho que foi ali que entendi quem era o meu avô.' A história ganhou um desfecho trágico poucos dias depois. Rosa tomou posse em 16 de novembro de 1967 e morreu três dias depois, vítima de um infarto, aos 59 anos, no apartamento de Copacabana. 'As rosas usadas na posse foram usadas depois no velório. É talvez o momento mais dramático da história da literatura brasileira do século XX', afirma Leonêncio Nossa. Guimarães Rosa morreu perto do mar, mas nem por isso longe de suas veredas. Porque, como escreveu o próprio Guimarães Rosa, 'o sertão é do tamanho do mundo'.
Legado e presença no Rio atual
Quase seis décadas após sua morte, pesquisadores acreditam que Guimarães Rosa continuaria encontrando no Rio de Janeiro o mesmo material humano que alimentava sua escrita. 'Eu acho que ele continuaria obcecado em observar as pessoas do Rio de Janeiro e os bichos do Rio de Janeiro. O Rio era a capital quando ele escreveu Grande Sertão. Aqui estava gente do Brasil inteiro. E continua', diz Leonêncio. Para o neto do escritor, ele provavelmente seguiria procurando refúgios na cidade. 'Eu acho que como todo carioca ele estaria buscando refúgios porque a cidade cresceu muito, mas eu consigo imaginar ele passeando no aterro do Flamengo, imaginar ele passeando pela praia.'



