Na célebre pintura The Problem We All Live With (O Problema com Que Todos Convivemos, 1964), de Norman Rockwell, vemos uma menina negra de seis anos, vestida de branco, caminhando sob escolta de agentes federais, diante de um muro manchado por insultos racistas e restos de um tomate arremessado. Os homens que a acompanham aparecem sem rosto, enquanto a criança avança sozinha, concentrando em si toda a tensão da cena.
Essa ilustração registra um momento decisivo da história americana ao representar a pequena Ruby Bridges rumo a uma escola hostil. O que a torna perturbadora ainda hoje não é apenas o racismo, mas o fato de que os representantes do Estado aparecem como figuras anônimas, funcionais, desprovidas de identidade moral. O poder protege, mas não assume; garante a travessia, mas se esquiva da responsabilidade ética. Essa figuração funciona como uma matriz visual para compreender a atuação brutalizada do Serviço de Imigração e Fiscalização Aduaneira dos Estados Unidos (ICE) no contexto político instaurado por Donald Trump — e mais do que isso.
Da memória à advertência
Lida à luz do presente, a imagem de Rockwell deixa de ser memória e se torna advertência: quando o poder abandona o rosto humano e se exerce por milícias estatais, o verdadeiro sofrimento não é apenas das vítimas diretas, mas da própria ideia de democracia, exaurida pela repetição institucional da injustiça.
Nesse cenário, a recente detenção, nos Estados Unidos, de Alexandre Ramagem, por agentes do próprio ICE — seguida de sua rápida liberação, ainda sem explicações claras — introduz um elemento de ironia quase didática. Ex-diretor da Agência Brasileira de Inteligência (Abin) e aliado da extrema direita, Ramagem perdeu o mandato de deputado e deixou o País durante o julgamento da ação penal da trama golpista no Supremo Tribunal Federal (STF), no qual foi condenado a 16 anos de prisão.
Ora, o mesmo aparelho estatal que, em tantas ocasiões, se apresenta como força cega, intimidatória e seletiva, surge e recua com a mesma opacidade, quer como instrumento de cooperação jurídica, quer como engrenagem indecifrável. Essa oscilação não atenua a crítica: ao contrário, a torna mais aguda. Revela um poder que não é intrinsecamente ilegítimo, mas profundamente instável em seus critérios — como se a justiça dependesse menos de princípios do que de circunstâncias.
A violência administrativa do ICE
A violência do ICE não é apenas física — é administrativa, como foram tantas violências do século 20. Ela lembra menos o excesso e mais o procedimento. Como nas gravuras tardias de Francisco de Goya, em Los Desastres de la Guerra, o horror não nasce do espetáculo, mas da repetição: corpos arrancados de seus lugares, famílias desmembradas, rostos reduzidos a casos, números, “status”. Goya já havia entendido que o verdadeiro terror surge quando a barbárie deixa de ser exceção e passa a ser método.
Também há algo de Francis Bacon nesse presente. Em sua pintura, a violência já não se organiza em torno de um acontecimento, mas se inscreve diretamente na matéria humana: rostos que se desfazem, corpos que perdem contorno, identidades que se dissolvem. O mesmo ocorre quando agentes encapuzados operam no espaço civil: não se sabe quem bate à porta nem de onde vem a ordem nem quem responderá por ela. A pulverização da responsabilidade é o que permite que o Estado atue como força bruta sem jamais se reconhecer como tal.
Arte de resistência e exaustão
A história da arte mostra que esse tipo de violência encontra sua expressão mais recorrente não na pintura oficial, mas na arte de resistência. Pense-se em Honoré Daumier, que expôs o rosto grotesco da autoridade travestida de legalidade; ou em Käthe Kollwitz, cujas figuras maternas esmagadas pelo Estado antecipam o drama das famílias migrantes. Não há épica ali — apenas exaustão.
É nesse ponto que a obra de Rockwell, frequentemente mal lida como “edificante”, se revela radical. A criança avança, mas paga o preço sozinha. O progresso caminha, mas consome seus portadores. Hoje, migrantes e refugiados são convocados a encarnar conflitos que não criaram. O heroísmo lhes é imposto; a vulnerabilidade, explorada. O que se chama ordem é, na verdade, a recusa de olhar o próprio fracasso político.
Isolamento e crise civilizacional
Como em Edward Hopper, o drama contemporâneo é feito de isolamento: indivíduos separados do espaço comum, expulsos da narrativa nacional, observados por instituições que já não reconhecem o humano no outro. O que emerge dessas imagens não é psicológico, mas civilizacional.
Sob a luz do ICE, essa cena com a menina Bridges deixa de ser memória e se torna espelho. Ela nos lembra que, toda vez que a autoridade abdica do rosto, da palavra e da responsabilidade, são sempre os mesmos que caminham sozinhos — e os mesmos que acabam esmagados em nome de uma ideia abstrata de nação, lei ou segurança. O verdadeiro problema que todos fingem não viver é este: quando a violência se normaliza, não é apenas a vítima que transpõe o muro — é a própria ideia de civilização que começa a ruir.



