A ideia era simples, e por isso mesmo destinada ao fracasso: reunir pessoas presencialmente. Não se tratava de uma excursão ao Himalaia, nem um pacto de silêncio num mosteiro tibetano. Era apenas um encontro entre adultos para conversar sobre assuntos gerais. Assuntos gerais, aliás, são os únicos que ainda temos energia para enfrentar. Assuntos específicos exigem preparo, indignação e, em alguns casos, leitura.
A princípio, todos toparam. No WhatsApp, naturalmente, onde a coragem social ainda não exige banho, roupa limpa nem deslocamento. O entusiasmo foi geral. Tão geral que já se podia desconfiar.
O encontro marcado e a ausência geral
A anfitriã marcou data, horário e lugar. Escolheram um gastrocafé simpático, desses aonde o espresso vem numa xícara pequena e a conta numa bandeja enorme. Ela chegou adiantada. Pediu uma água com gás. Depois um café. Depois outro, mais por solidariedade ao garçom do que por vontade. Ninguém apareceu.
Mas havia explicações, todas legítimas. Um tinha trabalho. Outro estava com a mãe no hospital. Uma cuidava do neto. Outra esperava o técnico da internet (entidade mística que marca entre 8h e 18h e chega às 19h para dizer que não era com ele). Houve também uma dor no joelho, uma reunião emergencial, um cachorro indisposto e uma vaga menção a "não estou na vibe hoje".
A anfitriã entendeu. Porque, depois de certa idade, entender deixa de ser virtude e passa a ser equipamento de sobrevivência.
Segunda tentativa: o mesmo resultado
Tentou de novo. Outra data. Novo entusiasmo digital. Mais emojis. A mesma ausência física. Desta vez, o grupo se superou: houve uma desistência preventiva, duas confirmações condicionais e uma pessoa que só respondeu "vou ver", que, em português brasileiro, significa "não conte nem com meu espírito".
Na terceira tentativa, ela já nem marcou nada, deixou em aberto. Ainda assim, ninguém foi.
A mensagem de desistência
Foi então que escreveu a mensagem encerrando a iniciativa. Não acusava ninguém. Não havia drama. Apenas a constatação calma de quem descobriu uma lei da natureza: acima de certa idade, a agenda deixa de ser um objeto e passa a ser um predador. Começou assim: "Neste país, ninguém 50+ pode recusar trabalho. Família vem em seguida. Saúde na sequência. O carro no mecânico tem prioridade. O boleto idem. A vida inteira vem antes da vida social." E fechou o texto com precisão quase científica: "Sem querer ser mórbida, mas grupos maiores agora só se reúnem em funerais."
O WhatsApp não deu mais um pio. Depois de longo tempo, um dos membros comentou: "Triste, mas é verdade." Outro mandou uma carinha chorando (o luto moderno). E, por fim, alguém perguntou: "Mas precisa confirmar presença ou basta falecer?"



