Palhaços, magos e bruxas: a simbologia por trás das alcunhas do funk paulista
Palhaços, magos e bruxas: simbologia do funk paulista

Nos últimos anos, o funk paulista construiu um universo visual e simbólico próprio, onde DJs e MCs adotam apelidos como Bruxo, Mago, Coringa e Mandrake, criando personagens que extrapolam a música. No Dia Nacional do Funk, celebrado em 12 de julho, o g1 mergulhou no subgênero funk bruxaria para entender a origem dessas alcunhas, que se tornaram marca registrada de identidade visual e sonora, influenciando a música, a moda e o audiovisual das periferias da capital ao interior paulista.

O que é o funk bruxaria?

O funk bruxaria é um desdobramento do mandelão paulista, subgênero que ganhou força na Baixada Santista, capital e interior de São Paulo ao longo da década de 2010, especialmente em bailes de rua e na cultura automotiva. A partir de 2020, durante a pandemia, milhares de jovens passaram a produzir músicas em casa com softwares simples, divulgando os trabalhos em plataformas digitais. Nesse cenário, o funk bruxaria levou a experimentação sonora mais longe, incorporando sintetizadores agressivos, ruídos metálicos, risadas e sons inspirados em filmes de terror.

A crescente do gênero é comprovada por números: entre o fim de 2025 e o primeiro semestre de 2026, o funk ocupou a maior parte das posições do Top 10 do Spotify Brasil e manteve presença constante entre as 50 músicas mais ouvidas do país, superando o sertanejo em diversos períodos.

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Por que apelidos de bruxo, mago e palhaço?

Para quem faz parte da cena, os apelidos funcionam como assinatura criativa. "O apelido de bruxo ou mago e toda essa estética representam que o DJ faz magia e bruxaria em suas produções, com batidas alucinantes que fazem transcender como algo lúdico e mágico", explica DJ Blakes, um dos principais nomes do gênero, que se apresenta em Bauru (SP) no próximo sábado (18). Segundo ele, o uso dessas alcunhas ajuda o artista a se destacar em um cenário competitivo.

"Assim como no rap e no trap, muitos artistas criam um apelido para se destacar e mostrar sua personalidade. No funk mandelão paulista, quem manda é quem faz a batida mais alucinante (ou mais sombria), se formos pensar pelo lado do funk bruxaria. Então, o apelido de bruxo é o que faz perfeito sentido", completa.

DJ Will BR, que adotou o apelido de "Bruxo dos Mandelão", afirma que a identidade visual se tornou parte da experiência: "Sempre acompanhei a evolução do funk paulista e vi que, além da música, a imagem também passou a contar uma história. Quis criar uma identidade que representasse a energia do meu show e do funk bruxaria, as máscaras, os figurinos e os elementos visuais ajudam a transformar cada apresentação em uma experiência".

Mandrake, o Mago dos Magos

DJ Mandrake 100% Original, um dos maiores DJs e produtores do Brasil, teve seu apelido inspirado pelo personagem de quadrinhos "Mandrake, o Mágico", criado em 1934 por Lee Falk. "Eu me inspirei no verdadeiro Mandrake. O cara que fazia mágica e hoje eu sou o cara que faz magia nos beats. Então eu sou uma reencarnação do Mandrake. Um ilusionista, um mágico, um mago, é o que eu faço aqui nos meus trampos e é por isso que eu sou conhecido como o mago dos magos", conta.

Vilões como símbolo de resistência

Para estudiosos, a escolha de personagens como vilões vai além da estética. O pesquisador Thiago de Souza, doutor em Funk pela USP, explica que a presença desses personagens pode ser compreendida a partir do conceito de "distinção social" de Pierre Bourdieu. "A questão do vilão no funk é, no fundo, um jogo de distinção social. Admirar o vilão é inverter, de propósito, os valores dominantes para provocar a sociedade. A população marginalizada está excluída da sociedade de consumo e vive o efeito colateral da riqueza de poucos: a pobreza de muitos".

Segundo ele, personagens como o Coringa deixam de representar apenas o antagonista e passam a simbolizar alguém que desafia uma ordem injusta. "Quando a sociedade é injusta, o vilão pode aparecer como uma espécie de justiceiro, ou até de herói. O Coringa é um bom exemplo. No filme com Joaquin Phoenix, vemos como nasce o vilão que depois será condenado pela própria sociedade".

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A doutora em Multimeios e professora da Uniso, Thífani Postali, afirma que esses símbolos precisam ser analisados dentro do contexto em que surgem. "As identidades são formadas a partir da diferença, daquilo que não é hegemônico. O funk é um movimento cultural em que jovens periféricos encontraram uma forma de criar suas próprias histórias, linguagens e modos de vida".

Direito à fantasia

Para Milena Nascimento, fundadora da Mile Lab, o funk bruxaria reivindica o direito à fantasia. "Historicamente, a arte da quebrada foi empurrada para o hiper-realismo. Parece que o artista periférico só pode falar da própria dor. O funk bruxaria rompe com isso ao dizer que a periferia também pode criar mitologias, imaginar outros mundos e brincar com o fantástico".

Ela cita o exemplo da bruxa: "Quando minha mãe decidiu assumir o arquétipo da bruxa, ela tirou das mãos de quem a ofendia a força daquele símbolo. Vejo algo parecido acontecendo no funk. Quando um jovem escolhe ser o Coringa, o Bruxo ou o Mago, ele está reivindicando autonomia sobre a própria imagem e transformando um estigma em potência".

Influência estética em Sorocaba

Em Sorocaba, a moda funkeira nasce de vivências locais. DJ Shayy, um dos principais nomes femininos da cena sorocabana, afirma: "A estética de quebrada vende muito. A gente vê isso nas redes sociais, na forma que os gringos nos enxergam nas novelas, nas revistas, em todos os lugares. A estética de quebrada vende muito, mas não é só uma estética, isso é uma vivência. É algo que eu cresci vendo, consumindo, e que faz parte da minha história".

Ela observa como os jovens do interior absorvem influências da capital e de outras regiões, criando uma estética própria com peças relíquias e marcas icônicas. "Conforme o pessoal mais novo vai consumindo o funk da capital e região, seja indo até um rolê lá ou vendo influenciadores, eles vão evoluindo a forma de se expressar. E isso aparece nos kits, com peças relíquias, com marcas mais tops, uma lupa da Oakley, uma Cyclone, Quiksilver, Planet, Kenner… É a forma que eles encontram de mostrar que fazem parte dessa cultura também".

Se nos anos 1990 o funk era reconhecido pelo passinho e nos anos 2010 pela ostentação, a geração do mandelão e do funk bruxaria passou a construir uma identidade baseada em símbolos, personagens e arquétipos. Mago, Bruxo e Palhaço deixaram de ser apenas apelidos para representar uma estética própria, que hoje influencia a música, a moda, o audiovisual e a forma como uma nova geração da periferia escolhe contar suas histórias.