Durante seu doutorado em literatura na Universidade de São Paulo (USP), finalizado em maio deste ano, a escritora Natalia Timerman percebeu que ainda não havia lido um importante clássico da literatura. “Todo mundo falava desse livro e eu tinha vergonha de dizer que não li”, ela relembra. A obra é Madame Bovary, de Gustave Flaubert, publicada em 1857 e considerada o marco inicial do realismo na Europa. “E aí eu fui ler imaginando que seria algo meio chato. Só que eu comecei a leitura e falei: ‘meu Deus, o que é isso?’. Como esse homem [Flaubert] escreveu essa mulher de um jeito tão impressionante?”
Madame Bovary ganhou nota máxima de Natalia
Madame Bovary é um dos títulos que tem mais de um exemplar nas estantes de Natalia. E mereceu uma avaliação ‘seis estrelas’ da escritora em seu caderno pessoal de anotações de leitura. “Eu anoto sobre os livros que li e dou uma nota bem particular de uma a cinco estrelas. Seis quando o livro transborda”, explica a autora de obras como Copo Vazio e a mais recente Antes que apague.
Natalia Timerman é mais um nome que topou abrir sua biblioteca à série Coleção de Livros, do Estadão, em que vasculhamos os acervos literários de diferentes personalidades. Você pode assistir a todos os episódios aqui.
Grande Sertão: Veredas é o melhor livro do mundo, segundo a autora
“Esse é o melhor livro do mundo. Eu li boa parte desse livro, numa viagem no rio Xingu, durante a minha residência em medicina. E foi muito impressionante ver os elementos que ele cita na natureza e tê-los por perto. Depois, eu terminei o livro já em São Paulo. E eu lembro exatamente o momento em que eu terminei, porque meu pai me ligou e eu estava chorando de soluçar. Eu não conseguia falar. E é muito bom quando um livro consegue te fazer chorar.”
Maior que o Mundo: o livro que o pai de Natalia não terminou de ler
“Este eu ainda não li. Mas tem um valor sentimental para mim. É o livro que meu pai não terminou de ler. É o livro que meu pai estava lendo quando morreu. E está marcado na página que ele parou. E eu nunca vou conseguir tirar da minha estante. Eu não sei se eu vou conseguir ler esse livro algum dia, mas é um livro pelo qual eu tenho muito carinho.”
Crônica da Casa Assassinada: um livro que ficou entranhado
“Eu li esse livro em 2004. E eu nem lembro por que eu peguei esse livro para ler. Só sei que eu amei. Eu lembro até hoje do cenário, de alguns fatos, do jardineiro, da dona Nina, que é uma das personagens. É um livro ficou entranhado em mim e que poucas pessoas falam sobre, mas eu queria destacá-lo.”
A Fera na Selva: uma história de amor que não acontece
“Leitura curtinha. Eu peguei em uma viagem e terminei bem rápido porque é uma novela. E é muito maravilhoso. Pelo título você imagina que vai ser a aventura de um homem numa floresta. Mas na verdade é uma história de amor que não acontece. Triste, doída, muito bem escrita. É uma coisa impressionante.”
A Visita Cruel do Tempo: indicação de uma amiga
“Foi uma indicação de uma amiga quando eu estava escrevendo Copo Vazio. O grande personagem é o tempo, um tema que me interessa muito. Eu lembro que ele começa com uma mulher cleptomaníaca. E aí depois, cada personagem vai aparecendo em outra história. É genial e belíssimo.”
O Coração do Dano: diálogo com Antes que apague
“Foi lançado recentemente no Brasil. E até encontrei ela em Paraty e pedi um autógrafo. Está muito grifado, porque é uma obra que dialoga muito com o livro que eu eu estava escrevendo na época, o Antes que apague. Eu lia o livro da Negroni quase que para me ‘alimentar’. Entrar nesse ritmo, nessa dor, para escrever.”
Desarticulações: a epígrafe de Antes que apague
“É um ensaio pequeno, de onde tirei a epígrafe do Antes que apague. Ela escreve sobre uma amiga que está com Alzheimer, perdendo a memória. E, por isso, esse título que descreve tão bem essa sensação: desarticulações.”
Mis Documentos: primeiro presente para o companheiro
“Foi o primeiro livro que eu dei para o meu companheiro. Estou com ele há dez anos. É um livro de contos maravilhosos do Zambra, com uma tradução muito boa de Miguel Del Castilho. Lindo livro.”
Conversa no Catedral: apesar das discordâncias políticas
“Eu discordava muito das posições políticas do Vargas Llosa. Achava péssimas. Mas esse livro é muito bom e eu vou gostar desse livro para sempre. Foi um dos livros que li no original em espanhol. O pai do meu primeiro filho é cubano, então ele me dava muitos livros de autores latino-americanos. Esse foi um deles. É um livro muito sofisticado, de histórias que se entrelaçam, mas no nível da frase. Uma após a outra. Em tempo diferentes. E mesmo assim você não se perde.”
A Autobiografia da Minha Mãe: um clássico contemporâneo
“Considero esse livro um clássico. Ela faz um rendado com as palavras e propõe a desconstrução de uma hegemonia. É muito impressionante esse livro.”
A amiga genial: paixão que virou doutorado
“Ferrante é uma das minhas grandes paixões. A minha paixão por ela foi tanta que eu entrei no doutorado com um projeto para estudá-la em paralelo com a obra do Karl Ove Knausgård, que são dois autores que escreveram séries de livros. E até hoje a Lenù e a Lila [personagens das obras de Ferrante] estão muito presentes em mim, pela profundidade de interpretação da vida delas, da relação entre elas, da ambivalência na relação de amizade entre duas mulheres.”
O Livro das Semelhanças: o livro que mais deu de presente
“Acho que é o livro que eu mais dei de presente na vida. Porque é muito bonito. Uma poesia mais linda que a outra.”
A Condição Humana: o livro que ensinou a pensar
“Foi o único livro que eu tive que encapar de novo. A capa se esfacelou de tanto que eu li, reli, li, reli. A primeira vez foi em 2012 no meu mestrado e me apaixonei pela Hannah Arendt de um jeito incrível. Um livro que me ensinou a pensar. E, ao contrário do que possam pensar, não é um livro árido. Ele é delicioso de ler.”
Histórias da aids: o livro do pai
“É o livro do meu pai com a Naiara Magalhães. É um livro que conta as histórias que, como médico, ele viveu, observou e testemunhou de pessoas com aids lá no começo da epidemia. E ao longo do tempo como isso foi mudando. Esse livro inspirou o André Canto, que é um diretor de cinema, a fazer um documentário chamado Cartas para além dos Muros.”



