Adolescente indígena celebra 15 anos com pratos tradicionais de tartaruga e tracajá no Tocantins
Jovem Javaé festeja 15 anos com comida típica de tartaruga

A adolescente Xiwela Javaé, da etnia Javaé, celebrou seus 15 anos no final de maio com uma festa que reuniu familiares e amigos na aldeia Barra do Rio, em Sandolândia, na região da Ilha do Bananal, Tocantins. O destaque do cardápio foram os assados de tracajá e tartaruga, pratos tradicionais dos povos indígenas da região, além de carne de porco e bovina, bolo, música e forró. Vídeos da comemoração foram compartilhados nas redes sociais e chamaram a atenção pela preservação e expressão da cultura indígena.

Orgulho da cultura ancestral

Em entrevista ao g1, Xiwela expressou sua emoção: "Nossa, foi muito bom. Eu gostei muito. Eu tenho muito orgulho pelo meu povo e pela minha comunidade. Crescer nesse meio é muito legal pra mim, eu gosto daqui". A jovem, que pertence ao povo Javaé, contou que a celebração ocorreu em sua própria casa e que a tartaruga é um elemento central em ocasiões especiais.

Culinária tradicional e manejo sustentável

A tartaruga faz parte da culinária ancestral dos indígenas e seu consumo é cercado de regras culturais e legais de manejo sustentável. O vice-cacique da aldeia, Teixiby Javaé Valdemir Filho, explicou: "A tartaruga é a nossa comida principal. É servida nas nossas festas culturais e em ocasiões especiais. No dia a dia, quando tem tartaruga, a família se reúne para comer junto. Nos orgulha mostrar comida tradicional do nosso povo". O animal pode ser cozido, assado ou frito, e todas as partes são aproveitadas. Para assar, a tartaruga é colocada na brasa com o casco e, quando pronta, basta abrir o casco e consumir. Na culinária Karajá, destacam-se dois pratos típicos: o bororó, um mingau feito com miúdos e pedaços de carne misturados com farinha, e o bèrèti, uma batida de carne que pode ser frita com farinha, ambos utilizando o casco como recipiente.

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Legislação permite consumo por indígenas

Os povos indígenas são autorizados por lei a consumir carne de animais silvestres para subsistência, como forma cultural e tradicional. A legislação ambiental, porém, impõe regras: o consumo deve ocorrer apenas dentro dos territórios indígenas e a comercialização é proibida, para evitar ameaças à sobrevivência das espécies. De acordo com o Ibama, não indígenas estão proibidos de consumir tartarugas e tracajás dentro ou fora das terras indígenas, conforme a Lei Federal 5.197/67. A infração é crime ambiental, com multas que variam de R$ 500,00 a R$ 5.000,00, podendo ser dobrada em caso de comercialização, além de detenção de seis meses a um ano, segundo a Lei de Crimes Ambientais. A Fundação Nacional dos Povos Indígenas (Funai) foi procurada, mas não se pronunciou até o fechamento da reportagem.

Preservação da identidade cultural

A Ilha do Bananal divide as aldeias Karajá, no Rio Araguaia, e Javaé, no Rio Javaé. A aldeia Barra do Rio é da etnia Karajá, mas fica na região do Rio Javaé. O vice-cacique Teixiby Javaé reforçou a importância da tradição: "A tartaruga é a nossa comida típica, prato principal do nosso povo, vem de nossos ancestrais milenares. Sempre mantemos a cultura, língua materna e as nossas comidas tradicionais vivas". A festa de 15 anos de Xiwela é um exemplo vivo da resistência cultural indígena no Tocantins.

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