As semelhanças entre São Paulo e Nova York são evidentes: metrópoles vibrantes, arranha-céus, intensa atividade econômica e vida cultural pulsante. Nos últimos anos, o fenômeno dos clubes de comédia, originado em Manhattan e consolidado na capital paulista, abriu caminho para outro movimento: a ascensão das casas de jazz e blues, gêneros americanos admirados globalmente. A violência urbana e o poder aquisitivo ainda limitam a comparação com a Big Apple, mas empresários locais apostam nesse conceito musical, unindo som de alta qualidade a ambientes intimistas. O Estadão percorreu os sete principais endereços paulistanos para ouvir jazz e blues: Blue Note, Whiplash Bar, The S., Bourbon Street Music Club, Madeleine Jazz Bistrô, All of Jazz e JazzB.
Blue Note São Paulo: a grife internacional na Avenida Paulista
Localizado no Conjunto Nacional, o Blue Note ocupa duas áreas: uma interna para 330 pessoas e uma externa (Varanda Blue) com 180 lugares, com vista para a Paulista. A franquia, fundada em 1981 nos EUA, foi trazida ao Brasil pelo empresário Luiz Calainho, ex-executivo da Sony. Inaugurada no Rio em 2016, a unidade paulista surgiu da parceria com Facundo Guerra, nome conhecido da noite local. A programação oferece cerca de 40 shows mensais, em duas sessões (20h e 22h30), com ingressos. “Nossa curadoria é democrática: além do jazz, abrimos espaço para MPB, música instrumental, blues, rock, samba e chorinho, sempre com grandes nomes”, afirma Flávio Pinheiro, sócio de 46 anos. Na visita, o músico Dado Magnelli homenageou Woody Allen, com repertório inspirado nas trilhas do cineasta. O menu inclui entradas refinadas, massas, drinks e vinhos.
Whiplash Bar: o jazz informal dos Jardins
Na Rua Dr. Melo Alves, 74, o Whiplash Bar surgiu em 2019, inspirado no filme homônimo. O fundador Alessandro Cardoni, 53, morou em Nova York por cinco anos e sentiu falta de clubes informais. Com capacidade para 120 pessoas, o espaço tem dois níveis: térreo com palco e bar, e superior com piano e sofás. “As pessoas vão a casas de jazz quando viajam, por status, mas não no Brasil. Quero mudar isso”, diz Cardoni. O bar ficou conhecido como ponto de encontros românticos. Agatha, 31, que estava com o namorado, elogia os drinks, como o coquetel 'Carol', à base de gin, brandy, vermute e mel. O cardápio foca em finger food. Cardoni lamenta a noite paulistana enfraquecida: “A cidade está vazia. O governo poderia melhorar a situação.”
The S.: uma pérola no Edifício Itália
No primeiro andar do Edifício Itália, o The S. homenageia Frank Sinatra. Inaugurado em 2022 por três amigos, tem capacidade para 80 pessoas. Os clientes recebem espumante na entrada e atravessam uma porta decorada com pratos italianos. O público é “35+”, segundo André Terra, 44. “São pessoas que gostam de boa música, jazz, rock, anos 70 e 80.” Alex Brunello, 45, destaca a ausência de palco: “Cria uma hierarquia. Aqui o músico fica no mesmo nível do público, o que proporciona colaborações e surpresas.” O veterano saxofonista Hector Costita, de 90 anos, já se apresentou ali com seu discípulo Derico Sciotti. O cardápio inclui drinks autorais, petiscos e pizzas artesanais. O centro da cidade ainda é um desafio, mas Brunello vê melhora com a união de bares como Dona Onça e Casa do Porco.
Bourbon Street Music Club: história e blues em Moema
Na Rua dos Chanés, 127, o Bourbon Street existe desde 1993, com capacidade para 450 pessoas. Fundado por quatro amigos, o único remanescente é Edgard Radesca, 78. A casa foi inspirada em Nova Orleans e tem acústica planejada. “Desde o começo não queríamos simetria. Côncavos e convexos ajudam na acústica”, explica Radesca. A decoração exibe relíquias: a guitarra de B.B. King, que inaugurou o clube, e um terno de Ray Charles. Radesca organizou 15 apresentações de Ray Charles, incluindo um concerto para 160 mil pessoas no Parque Ibirapuera em 1995. “Para superar o vício em heroína, ele jogava xadrez. Durante um voo, jogamos juntos. Ele brincava comigo”, relembra. A programação agora é eclética, com noites de disco e ritmos latinos. A gastronomia, assinada por Célia, mulher de Radesca, baseia-se na culinária da Louisiana.
Madeleine Jazz Bistrô: romantismo na Vila Madalena
Na Rua Aspicuelta, 201, o Madeleine Jazz Bistrô (antes Madeleine Jazz Bar) tem 140 lugares e decoração em tijolinhos. Fundado em 2009 por André Guilger, 51, o conceito une música, gastronomia e ambiente. “Ninguém fica sem lugar sentado. Jazz combina com sentar e tomar vinho”, diz. A casa tem adega no subsolo e linha própria de espumante brut. A programação inclui tributos a ícones, como Wayne Shorter. O público é “maduro” em personalidade, não idade. Fernanda, 41, apresentou o local à mãe Serrana, uruguaia que frequenta casas similares em Nova York. “Vale a pena pela música, ambiente agradável”, afirma Serrana.
All of Jazz: 30 anos de tradição no Itaim Bibi
Na Rua João Cachoeira, 1366, o All of Jazz é um casarão de madeira com capacidade para apenas 50 pessoas. Completa 30 anos em 2025. A casa foi idealizada pelo engenheiro Antônio Augusto Deleuse, falecido; Rose Lemes, 52, funcionária há três décadas, assumiu. “É pequeno, as pessoas se conhecem, viram amigas. Depois da pandemia, recebemos público mais jovem”, conta Rose. O jazz tradicional é o carro-chefe. “Queremos mostrar que jazz não é elitista, é para todos.” O cardápio tem porções e canapés a preços acessíveis. Na parte superior, uma loja vende CDs e DVDs de jazz e blues. “Nosso público se identifica com isso”, diz Rose.
JazzB: do projeto de rua ao clube consolidado
Na Rua General Jardim, 43, o JazzB surgiu em 2013 como desdobramento do projeto JazzNosFundos, que acontecia em um estacionamento em Pinheiros. O sócio Maximo Levy, 53, argentino criado em Barcelona, se inspirou em um clube de jazz no porão de aposentados na Espanha. A casa tem 120 lugares e, após a pandemia, incorporou mesas na calçada, retirando vidros da fachada para se tornar menos elitista. Levy conseguiu incentivo da Lei Rouanet para uma série de 12 apresentações em 2025. “É um projeto que tentávamos desde o JazzNosFundos. Nos ajuda a trazer artistas como André Mehmari”, diz. Um diferencial é a arquibancada com mesas ao lado do palco, que oferece visão ampla e acústica excelente. O cardápio inclui entradas, sanduíches, vinhos e drinks autorais. “O fã de jazz não bebe em excesso, no máximo duas ou três bebidas”, observa Levy. Carlos, 58, que bebeu apenas uma taça de vinho, afirma: “Ouço jazz desde a adolescência. Nunca me enjoei. Bom gosto é tudo.”



