Geovana quebra silêncio sobre regravação de 'Tataruê' por Marcelo D2
Geovana quebra silêncio sobre regravação de 'Tataruê'

Dias após obter na Justiça uma liminar que obriga a Universal Music e Marcelo D2 a incluírem seu nome nos créditos da regravação de "Tataruê", a cantora Geovana, de 78 anos, quebrou o silêncio publicamente pela primeira vez sobre o caso. Em nota divulgada pelo Coletivo Sindicato do Samba, que gerencia sua carreira, a artista afirmou ter sido surpreendida com o lançamento da faixa e que nunca autorizou a gravação. Segundo o texto, a compositora também não foi avisada previamente sobre a inclusão da música no álbum do rapper.

Surpresa e falta de autorização

"Foi com espanto que Geovana tomou conhecimento da gravação recente de sua música ‘Tataruê’ pelo rapper Marcelo D2, uma vez que não autorizou e sequer foi comunicada pela Universal ou pelo intérprete", diz a nota. O Coletivo Sindicato do Samba afirma que tentou resolver o caso extrajudicialmente antes de recorrer à Justiça. Representantes do rapper teriam procurado Geovana anteriormente para propor um dueto de "Tataruê", mas a cantora foi surpreendida ao descobrir que uma nova versão da música havia sido lançada sem sua participação.

Tentativas de acordo frustradas

"A ação foi protocolada no dia 13 de maio deste ano, em uma referência à data da abolição da escravatura, e tida como a última saída de Geovana, que tentou acordo tanto com a Universal, quanto com a equipe de Marcelo D2. Com a equipe do rapper, PASMEM, houve contato anterior e convite para gravar a mesma música juntos, em um dueto. Desse modo, evidentemente, Geovana e sua produção foram completamente surpreendidos com o lançamento da nova gravação por parte do cantor", afirma o comunicado. "Em nova tentativa de diálogo, a equipe de Marcelo D2 seguiu sem respostas, enquanto a Universal Music não apresentou qualquer proposta real de reparação. Ou seja, Geovana, em nome de toda sua obra e trajetória, não teve outra opção a não ser ajuizar a ação."

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A importância de 'Tataruê' para Geovana

No posicionamento, o Sindicato do Samba destaca que "Tataruê", lançada em 1975 no primeiro disco de Geovana, é uma das obras mais pessoais da compositora. A música reúne referências à ancestralidade negra da artista, à religiosidade de matriz africana e à própria história familiar, citando nominalmente seus filhos na letra. O coletivo também sustenta que a versão gravada por Marcelo D2 preserva elementos da gravação original, como arranjos, instrumentação e duração, além de apontar uma interpretação incorreta de um trecho do refrão.

"Para agravar ainda mais a situação, a versão do rapper apresenta interpretação errada na letra, na parte do refrão da canção. Vamos imaginar um caso hipotético para perceber a gravidade de tudo isso: por exemplo, imagine algum cantor regravar ‘Odara’, de Caetano Veloso, sem sua autorização. E ainda o faço de modo a se valer dos arranjos originais da música e, na hora do refrão, cantasse ‘Olara’. No caso de Gil, imagine ‘Drão’ virar ‘Grão’. Não é grave, é gravíssimo", acusam os representantes da cantora.

Debate sobre valorização do samba

Para o Sindicato do Samba, o episódio representa uma discussão mais ampla sobre valorização dos compositores populares, direitos autorais e preservação da memória do samba. O texto cita a importância de reconhecer mestres da cultura popular "em vida" e afirma que o caso envolve questões relacionadas à negritude, apropriação cultural e respeito às tradições do samba. "Compreendemos que o samba é um agente, um instrumento poderoso, uma entidade, uma religião, fundamental para promover e catalisar essa transformação de sociedade, integrado à educação pública, com envolvimento dos territórios e comunidades. Os sonhos e desafios são muitos, mas os sambas e ‘os mais velhos’ certamente ajudam a trilhar o melhor caminho. Queremos sim que o samba vire cartilha, tenha ministério – como já cantou Batatinha. Porém, sem passar por cima dos fundamentos e tradições que estão dentro desse universo de beleza chamado samba, cultura e modo de vida que teve seu início oficial na casa da baiana Tia Ciata, na região compreendida como Pequena África no Rio de Janeiro", afirma a nota.

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Posicionamento de Marcelo D2 e Universal

A Elemess Music, responsável pela carreira de Marcelo D2, informou anteriormente ao jornal O Globo que todas as autorizações necessárias foram concedidas pela Universal Publishing, administradora editorial da obra. A empresa afirmou ainda que os créditos autorais de Geovana constam nas plataformas digitais e que sempre esteve aberta ao diálogo com a artista. A Justiça do Rio determinou, em decisão liminar, que a Universal Music e Marcelo D2 incluam o nome artístico da sambista nos créditos da música em até dez dias, sob pena de multa diária de R$ 5 mil.