A escritora catalã Eva Baltasar, de 46 anos, é uma das principais atrações da Festa Literária Internacional de Paraty (Flip) deste ano. Na mesa de encerramento, que ocorre neste domingo, ela lança no Brasil o romance 'Mamute', obra que conclui sua trilogia sobre os aspectos instintivos e incômodos da maternidade. Em entrevista exclusiva, Baltasar revela detalhes de sua trajetória, incluindo a decisão de evitar empregos estáveis para se dedicar à escrita, o que a levou a ocupações precárias como faxineira e pastora de cabras.
Trilogia sobre maternidade e relações lésbicas
A trilogia de Eva Baltasar é composta pelos romances 'Permafrost', 'Boulder' e 'Mamute', todos publicados no Brasil pela editora autêntica. As obras abordam temas como maternidade, desejo, solidão e relações lésbicas, sempre com uma prosa poética e crua. 'Mamute', o livro mais recente, explora a relação entre uma mulher e sua mãe idosa, mergulhando em um 'matriarcado tóxico' que a autora conhece bem de sua própria infância.
“Minha família era um matriarcado tóxico”, afirma Baltasar. “Cresci cercada de mulheres fortes, mas também opressivas. A maternidade, para mim, sempre foi um tema complexo, cheio de contradições”. A escritora explica que o título 'Mamute' remete a algo grandioso e extinto, como a ideia tradicional de família que ela busca desconstruir.
Opção por trabalhos precários para escrever
Para priorizar a escrita, Baltasar sempre evitou empregos com horários fixos. Durante 15 anos, trabalhou como faxineira, pastora de cabras e em outras ocupações temporárias. “Eu sabia que, se tivesse um emprego estável, nunca teria tempo ou energia para escrever. Então escolhi a precariedade”, conta. A experiência como pastora, inclusive, inspirou a personagem principal de 'Mamute', que vive isolada no campo com sua mãe.
A autora também revela que, após 15 anos tendo apenas parceiras mulheres, passou a se relacionar com homens e aprendeu “quão fácil é se relacionar com eles”. “É uma dinâmica completamente diferente. Com mulheres, há uma cobrança emocional enorme; com homens, tudo é mais simples, quase banal”, reflete.
Recepção no Brasil e próximos projetos
Eva Baltasar diz estar surpresa com a recepção calorosa no Brasil. “Os leitores brasileiros são muito apaixonados e engajados. As perguntas que fazem são profundas e revelam uma identificação imediata com meus livros”, comemora. Sobre o futuro, a escritora revela que já trabalha em um novo romance, ainda sem título, que abordará a velhice e o abandono.
A participação de Baltasar na Flip reforça a presença da literatura catalã no evento, que também conta com outros autores da região. A mesa de encerramento da festa promete ser um dos momentos mais aguardados, com a autora debatendo os temas de sua obra ao lado da tradutora e de outros convidados.



