Da porta do nosso apartamento para fora, eu era um migrante mirim como qualquer outro. Sabia pedir pão na padaria, reclamar do trânsito e chamar biscoito de bolacha. Da porta para dentro, porém, entrava numa espécie de território autônomo da federação linguística brasileira: a República Popular do Piauião.
Meu pai era piauiense. Minha mãe, maranhense. O resultado foi uma criança criada em São Paulo, mas alfabetizada emocionalmente num idioma que o Ministério da Educação jamais catalogou. Toda família possui palavras próprias. Algumas têm apelidos carinhosos. Outras têm mitologia doméstica. A minha tinha um extenso vocabulário.
Calundu: a economia verbal do mau humor
Lembro do dia em que descobri que "calundu" não era uma palavra universal. Para mim, era tão normal quanto cadeira ou copo. "O menino acordou de calundu." "Seu tio está de calundu." "Não mexe com a avó hoje que ela tá de calundu." Só muito mais tarde percebi que, em São Paulo, as pessoas precisavam de frases inteiras para explicar um simples calundu: "Estou irritado sem motivo aparente, mas também não quero conversar sobre isso." No Maranhão, bastam três sílabas: calundu. Economia verbal digna de haicai.
Meu tio Zé Leão era um grande entusiasta dessa palavra. Certa vez viu uma namorada minha com cara de poucos amigos e perguntou: "A moça está de calundu?" Ela, paulistana da gema e muito sincera, respondeu: "Não, senhor. Estou no período fértil."
Petimetre: a ofensa que dispensa significado
Outra joia linguística da família era "petimetre". Trata-se de uma palavra inusitada porque já ofende antes mesmo de você saber o que significa. Ninguém recebe tal título e agradece. "Fulano é um petimetre." Pronto. A reputação do sujeito acaba de ser despejada num banheiro químico. Descobri depois que a palavra vem do francês petit-maître. Os gauleses tentaram fundar uma França Equinocial no Maranhão e falharam. Militarmente, perderam. Linguisticamente, deixaram essa bomba-relógio.
Pindó: a palavra-coringa universal
Mas nada se compara ao majestoso, ao incomparável, ao indispensável "pindó". Pindó nem é mais uma palavra. Já é quase um sistema filosófico. Quando você esquece o nome de alguma coisa, o pindó surge para preencher a vacuidade. "Passa o pindó." "Qual pindó?" "O pindó do pindó." E misteriosamente os outros entendem. O carregador de celular é um pindó. O controle remoto é um pindó. A tampa do ralo é um pindó. Até o clitóris e o pênis são um pindó. Suspeito que, se Aristóteles tivesse nascido no Piauí, metade da metafísica seria resolvida com a palavra-coringa. O universo, afinal, talvez seja apenas um enorme pindó cuja função ainda estamos tentando descobrir.
E assim segui vivendo entre idiomas. Falando português para o mundo. E, dentro de mim, preservando aquele velho dialeto doméstico onde mau humor é calundu, anão moral é petimetre e todas as coisas sem nome encontram abrigo sob a mesma palavra: pindó. A mais brasileira das soluções para quando a língua sabe o que quer dizer, mas não está muito a fim de explicar.



