A curadora da mostra 'Funk: Um Grito de Ousadia e Liberdade', Renata Prado, publicou uma carta aberta nas redes sociais denunciando censura após o evento ter sido encerrado antes da data prevista, sem aviso prévio. A exposição estava em cartaz no Museu da Língua Portuguesa, em São Paulo, e contava com 473 obras de arte, fotografias, audiovisuais, vestuário e outros itens.
Detalhes da exposição
A mostra, que ficou um ano e meio em exibição no Museu de Arte do Rio, ganhou conteúdos inéditos sobre o funk paulista ao chegar a São Paulo, em novembro de 2025. Segundo Renata, a previsão era que a exposição permanecesse aberta até agosto. No entanto, o site do Museu da Língua Portuguesa informa que o evento terminou em 31 de maio. Procurado pelo g1, o museu não respondeu até a última atualização da reportagem.
Relato da curadora
Em entrevista ao g1, Renata afirmou: 'Ninguém do governo do Estado ou do MLP falou comigo, não houve diálogo para pensarmos um caminho. Sofremos um ataque sistemático e não conseguimos nos defender.' Ela destacou que o MLP realizou reuniões para entender que o movimento funk é singular e que a exposição poderia sofrer retaliações. 'O acesso à cultura é um direito constitucional que, nesse caso, não foi assegurado. Nós saímos pela porta de trás do museu', disse a pesquisadora.
Ataques de parlamentares
De acordo com Renata, o encerramento antecipado ocorreu após 'começarem a surgir vídeos e manifestações de parlamentares da extrema direita atacando a mostra e associando seu conteúdo à apologia ao crime, às drogas e a narcocultura. Desde o início dessas investidas, fui informada pelo Museu da Língua Portuguesa de que a repercussão estava sendo monitorada'. Um dos vídeos era do deputado estadual Tenente Coimbra (PL), que afirmou: 'Fomos até o Museu da Língua Portuguesa verificar o absurdo que está em exposição que enaltece a narcocultura. Já entramos em contato com a secretária de cultura e em breve traremos novidades.'
A pesquisadora acrescentou: 'Posteriormente, soube que o assunto havia sido levado ao Conselho da instituição. Pouco tempo depois, fui comunicada de que a exposição seria encerrada antecipadamente. Também fui informada de que uma nova exposição passaria a ocupar o espaço, algo que jamais havia sido apresentado ou discutido comigo ao longo do processo de produção da exposição.'
Denúncia de censura
Em seu relato, Renata afirmou que era 'preciso nomear o que está acontecendo. É censura. E existe uma dimensão profundamente simbólica nesse episódio. Estamos falando de uma exposição realizada no Museu da Língua Portuguesa, uma instituição dedicada à valorização das múltiplas formas de expressão que compõem nossa cultura.'
Ela continuou: 'O funk também produz linguagem. Produz vocabulários, códigos e formas de comunicação que influenciam milhões de pessoas. Por isso, quando uma manifestação cultural periférica é silenciada, a pergunta que permanece é: Quem decide quais vozes merecem ocupar os espaços de memória do país?'
Por fim, a pesquisadora declarou: 'Defender o funk é, também, defender a legitimidade das expressões jovens, negras e periféricas. É defender a vida de todo pobre loko que encontra nas culturas negras uma forma de existir. Seguimos em luta.'



