Curadora da Flip diz que presença de autores marginalizados não foi plano, mas fruto do mundo instável
Curadora da Flip: presença de autores marginalizados não foi plano

A curadora da Festa Literária Internacional de Paraty (Flip), a escritora e jornalista Ana Paula Maia, afirmou que a presença recorde de autores marginalizados na programação deste ano não foi resultado de um plano deliberado, mas sim uma consequência do mundo instável em que vivemos. Em entrevista ao jornal Valor Econômico, ela explicou que a seleção dos convidados reflete a necessidade de dar voz a narrativas historicamente silenciadas, em um momento de crises políticas, sociais e ambientais.

Diversidade como reflexo dos tempos

De acordo com Ana Paula Maia, a curadoria não partiu de uma cota ou meta de diversidade. "Não foi um plano. Foi o mundo instável que pautou a seleção. Os autores que estão sendo convidados são aqueles que estão produzindo literatura que dialoga com as urgências do nosso tempo", disse. Ela destacou que a Flip deste ano conta com a maior participação de escritores negros, indígenas, LGBTQIA+ e de periferias em sua história, com 70% dos autores convidados pertencentes a esses grupos.

A curadora ressaltou que a programação inclui nomes como a indígena Eliane Potiguara, o congolense In Koli Jean Bofane, a ativista trans Amara Moira e o escritor negro Jeferson Tenório, entre outros. "A literatura brasileira sempre foi plural, mas os espaços de visibilidade, não. A Flip está tentando corrigir essa distorção", afirmou.

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Instabilidade global e local

Ana Paula Maia relacionou a diversidade da programação ao cenário de instabilidade global, marcado por guerras, crise climática e desigualdades. "O mundo está em ebulição. A literatura não pode ficar alheia a isso. Os autores marginalizados são os que mais têm a dizer sobre esses fenômenos, porque os vivem na pele", explicou. Ela citou o aumento de ataques a livros e autores em várias partes do mundo, incluindo o Brasil, como um sinal de que a literatura incomoda e precisa ser defendida.

A Flip 2026 ocorre entre 30 de novembro e 4 de dezembro, em Paraty, litoral sul do Rio de Janeiro. O evento terá como tema "O mundo instável" e debaterá questões como democracia, direitos humanos e meio ambiente. A curadora espera que a programação gere debates acalorados, mas também reflexão. "A Flip não é um espaço de consenso, mas de confronto de ideias. E isso é saudável", concluiu.

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