No contexto social de junho de 1976, sob a ditadura militar no Brasil, a formação do grupo Doces Bárbaros foi um ato político ao pregar afeto e liberdade como resistência. Cinquenta anos depois, o show tributo 'Nosso amor aos Doces Bárbaros' realizado no dia 25 de junho de 2026 no clube Manouche, no Rio de Janeiro, retoma esse espírito em meio a ameaças contemporâneas às liberdades individuais e coletivas.
O show e o contexto histórico
O tributo reúne os artistas Guilherme Borges, Maíra, Simone Mazzer e Verônica Bonfim, que apresentaram as 17 músicas do álbum ao vivo 'Doces Bárbaros' (1976), lançado há 50 anos pela Philips. O roteiro não seguiu a ordem do disco, mas buscou captar a essência do quarteto original formado por Caetano Veloso, Gal Costa, Gilberto Gil e Maria Bethânia. 'A energia do show foi boa, como exemplificou o canto de “Esotérico” (Gilberto Gil, 1976) com Guilherme Borges, Maíra e Verônica Bonfim sentados no palco, aos pés da cadeira que abrigava Simone Mazzer.'
Direção musical e estética
Com direção musical de Guilherme Borges, o show contou com trio de guitarra (Navalha Carrera), baixo (Lelena Anhaia) e bateria (Flávia Belchior), sonoridade afinada com a estética rock dos Doces Bárbaros. Os figurinos criados por Brunna Napoleão ecoavam a estética hippie, e os movimentos foram orquestrados por Iasmin Patacho e Yasmin Lima. O afeto entre os artistas foi evidente, como no duo de Maíra e Simone Mazzer em 'Eu te amo' (Caetano Veloso, 1976), que incluiu citação de 'Boneca de piche' (Ary Barroso e Luiz Iglesias, 1938) e gestual de Caetano e Bethânia.
Destaques musicais
Simone Mazzer, mesmo tropeçando em verso de 'Um índio' (Caetano Veloso, 1976), destacou-se pela força vocal. Verônica Bonfim segurou metaforicamente o machado de Xangô em 'Chuckberry fields forever' (Gilberto Gil, 1976). O duo de Guilherme Borges (na harpa) e Verônica Bonfim em 'Atiraste uma pedra' (Herivelto Martins e David Nasser, 1958) trouxe resistência do rock a um samba-canção. O bis reservou 'Fé cega, faca amolada' (Milton Nascimento e Ronaldo Bastos, 1974) e o hino 'Os mais doces bárbaros' (Caetano Veloso, 1976).
Espírito de resistência
O show foi aberto com 'As Ayabás' (Caetano Veloso e Gilberto Gil, 1976), explicitando a matriz africana da música. Ao fim, o hasteamento de uma bandeira com as cores do Brasil e a frase 'Livre para amar' corroborou as intenções do quarteto. 'Em essência, Guilherme Borges, Maíra, Simone Mazzer e Verônica Bonfim conseguiram evocar o clima de desbunde e contracultura que pautou a reunião dos Doces Bárbaros, sem cair na tentação de tentar reproduzir o irreproduzível.'



