CineOP 2026: Vincent Carelli e a arte do encontro com o Outro
CineOP 2026: Vincent Carelli e o encontro com o Outro

Ouro Preto recebe a CineOP 2026 com o lançamento de 'Arquivo Vivo', de Vincent Carelli e Ana Carvalho, um documentário que testemunha 40 anos de atuação do projeto Vídeo nas Aldeias. Carelli, indigenista e cineasta, é autor da trilogia fundamental formada por 'Corumbiara', 'Martírio' e 'Adeus, Capitão'. Agora, com 'Arquivo Vivo', ele vai além de um simples retrospecto: registra as transformações vividas por cinco povos indígenas nas últimas décadas: os Nambikwara Mamaindê (MT), os Gavião Parkatêjê (PA), os Enawenê-Nawê (MT), os povos isolados de Corumbiara (RO) e os Xikrin do Cateté (PA).

O tempo como matéria-prima

Ao longo de 127 minutos, Carelli e sua equipe retomam contato com aldeias e personagens filmados anteriormente. Os encontros são emotivos e muitas vezes brincalhões: 'Você está velho, Vicente', dizem os indígenas. 'Estamos velhos', responde o cineasta. Uma antiga cordialidade e cumplicidade aparece nessas cenas. O filme, como outros de Carelli, se assemelha a um rio sinuoso, com curvas ensolaradas e áreas sombrias. Há momentos de 'devolução', palavra recorrente nos reencontros: Carelli leva aos indígenas cenas e personagens de outrora, exibindo as imagens em telão, TV ou no computador. Muitos retratados já não estão vivos, deixando saudades.

Memória e resistência

Carelli pergunta a um homem se quer ver imagens da mãe. Ele responde que não, fica muito triste. 'Quer um pendrive para mostrar depois para os meninos?', pergunta Carelli. 'Não, melhor deixar aí', diz o indígena, apontando para o notebook. Mas a maioria deseja ver as imagens: como eram quando jovens, ver pais, mães, amigos e caciques desaparecidos, ouvir cânticos e rituais esquecidos. Os pendrives do cineasta são disputados, pois ativam memórias pessoais e ajudam a recuperar culturas ameaçadas. A beleza dos rituais e a graça dos contatos humanos são nubladas pela constatação de que as ameaças às culturas originárias permanecem e aumentam: garimpo, cerco do agronegócio e a voracidade do capital fecham o cerco sobre terras demarcadas.

Banner largo do Pickt — app de listas de compras colaborativas para Telegram

Encontro com o Outro

Há momentos mágicos, como a primeira aproximação com indígenas não contatados. É um encontro mítico com o Outro absoluto. A aproximação é cuidadosa, de ambas as partes. Mãos se tocam, a confiança chega aos poucos. Quando os protagonistas revêm as imagens gravadas há anos, caem na risada: 'Tínhamos muito medo', dizem tanto indígenas quanto brancos. Medo do Outro, da cultura estranha, da língua que não se entende. Quantos conflitos e mortes vieram desse pavor, transformado em hostilidade? Há também momentos tristes, como as imagens de três mulheres, últimas representantes de uma etnia. 'Elas não querem ter filhos', narra Carelli. Quando morrerem, morrerá com elas toda uma cultura.

Estilo e temporalidade

O filme segue um estilo reconhecível na obra de Carelli: aparente simplicidade que expõe a complexidade do relacionamento entre ocupantes e povos originários. O andar estendido das obras reflete o desejo de abandonar o tempo sintético, apressado e 'prático' do capital. 'Time is money' é substituído pelo tempo indígena, sem pressa, sem temer digressões, dando às cenas a temporalidade que merecem, com a câmera alternando planos gerais e closes. É uma viagem encantatória que merece ser feita.

Banner pós-artigo do Pickt — app de listas de compras colaborativas com ilustração familiar