O festival Vitória 2026 apresentou ao público um exemplar puro de cinema indígena com o filme A Caminhada Sagrada de Tatatxi Ywareté. Dirigido por Wera Djekupe (Marcelo Guarani), a obra refaz a trajetória de sua bisavó, que caminhou durante 35 anos para encontrar um lugar onde seu povo pudesse viver em paz. Ela é descrita como uma grande líder espiritual do povo guarani, tendo dedicado sua vida a curar, orientar e guiar seu povo rumo ao que chamava de 'Terra Sem Males'.
Uma saga entre o real e o mítico
Trata-se de uma verdadeira saga, descrita em linguagem ora realística, ora mítica. A longa marcha de Ywareté teria atravessado várias fronteiras e gerações. O narrador nasceu em Minas Gerais, para onde os Guarani teriam sido levados durante a ditadura militar. De volta ao Espírito Santo, a bisavó se juntou à luta dos Tupiniquins pela demarcação de território. De acordo com o diretor, o objetivo do filme é duplo: para os jovens indígenas, lembrar-lhes a sua ancestralidade; para os não-indígenas, 'uma oportunidade para desmistificar preconceitos'.
Beleza estética e autenticidade cultural
O filme se baseia na beleza e na força das imagens, bem como dos sons rituais que as acompanham quase todo o tempo. Sente-se a presença da autenticidade, de uma cultura que faz algo seu, com seus próprios recursos e, mais importante, expressando-se em sua linguagem estética particular. Um selo de originalidade que parece inscrito na estrutura de uma obra de vocação circular, diferente da linearidade a que estamos habituados. Pode-se dizer que a melhor maneira de ver (e ouvir) o filme é deixar-se levar por ele como numa viagem, curtindo cada passo do caminho por si só, cada som e passo, reservando uma síntese racional apenas para o fim. Ou esquecer-se dela.
Destaques da mostra nacional de curtas
A mostra nacional de curtas do festival ofereceu boas surpresas. Alguns destaques incluem:
- Tião Personal Dancer (Goiás), de Aristótelis Tothi: enquadra-se na cena do forró goiano. Em noite de sexta-feira, o tal 'personal dancer' se vê bastante requisitado, em especial por um senhor de meia-idade ainda indeciso quanto a certos aspectos da vida. O filme é interessante e, quando por fim surge a cena tão esperada, de beijo entre dois homens, o público do cinema explode em comemoração que se parece mais a uma celebração, como a de um gol decisivo marcado aos 45 minutos do segundo tempo.
- O que Faço com Isso Agora que Acabou? (Espírito Santo), de Julia Uliana e Natália Dornellas: Duas atrizes fazem o que seria um filme sobre o câncer, mas ao mesmo tempo não querem fazer um filme convencional sobre a doença. Preferem discutir o que acontece... depois. Seja o que for esse 'depois'. Original e interessante.
- Pequeno London (Rio Grande do Sul), de Victor Di Marco e Márcio Picoli: O garoto chamado London apresenta uma deficiência e a mãe confronta-se com o diagnóstico. Um tanto enigmático, o filme envolve pelo rigor de suas imagens e pelas dúvidas que levanta. A dupla de diretores vai participar em setembro do Festival de Veneza com o longa que deve ser desenvolvimento deste curta.
- A Pele do Ouro (Rondônia), de Marcela Ulhoa e Yare Perdomo: A moça chamada Patri narra e atua neste documentário, descrevendo sua infância na Venezuela e a dura realidade encontrada quando resolve tentar a vida no Brasil. Mantém um diário em que comenta e desenha o que lhe é dado apreender dessa nova vida, dividida entre esperanças, garimpo e prostituição. Bem forte e verdadeiro.



