'Todo Mundo em Pânico' estreia após 13 anos com volta dos Wayans
'Todo Mundo em Pânico' estreia com volta dos Wayans

Estreia nesta quinta-feira (4) nos cinemas brasileiros o sexto filme de "Todo Mundo em Pânico", um dos maiores fenômenos do terror-paródia dos anos 2000. Apesar de estar sendo chamado pelo público de "Todo Mundo em Pânico 6", o longa vem sendo divulgado apenas com o título original, sem o número estampado no pôster. O lançamento acontece 13 anos após o capítulo anterior e marca a volta dos irmãos Wayans após mais de duas décadas de afastamento.

O hiato foi provocado por disputas de direitos autorais e divergências criativas com os antigos coprodutores da marca, os irmãos Bob e Harvey Weinstein — este último, condenado por uma série de crimes de agressão e assédio sexual em Hollywood. Marlon e Shawn se juntam a Anna Faris e Regina Hall, as eternas Cindy e Brenda, para remontar o quarteto original que deu o tom dos dois primeiros filmes da série.

Justamente por tudo isso, a expectativa dos fãs não era pequena. E nem podia ser. A franquia tinha em mãos o elenco original e mais de uma década de material para trabalhar: novos filmes, novos debates, novos termos e, sobretudo, novas polêmicas.

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Pelo fim do 'mimimi'

A premissa é a seguinte: o quarteto tenta escapar de um assassino mascarado também velho conhecido do público, o Ghostface, mas estabelecendo uma nova meta, "acabar com a cultura do cancelamento". O espectador, a essa altura do campeonato, já está cansado de saber: para assistir ao filme, não dá para se levar muito a sério. Afinal de contas, a própria franquia nunca se levou.

E o novo filme faz questão de deixar isso bem claro, colocando, sem pudor, na boca de um dos personagens no início da trama: "Não é comédia com consciência social feita para branco pensar e ninguém rir. É para se divertir". É a partir desse posicionamento politicamente incorreto que os irmãos Wayans (que também assinam o roteiro) tentam desenhar uma provocativa disputa entre a velha guarda e a nova geração.

Ao mirar nos dilemas geracionais, é como se os criadores — que agora já passaram da casa dos 50 anos — estivessem voltando aos holofotes para dizer: "Deixa a gente mostrar para vocês como é que se faz".

Metralhadora de referências

Seguindo essa linha de ataque, o roteiro apresenta na tela um compiladão de quase tudo que bombou nas redes, nos cinemas e no noticiário nos últimos tempos. Sobra espaço para piadas envolvendo gays do Grindr, o Kanye West do Novo Testamento, a Covid-19, o ChatGPT, os relatórios de Jeffrey Epstein, a invasão do Capitólio norte-americano, a nova geração de streamers e por aí vai...

Há ainda referências diretas a dezenas de outras produções, como "Wandinha", "Pecadores", "Guerreiras do K-Pop", a cinebiografia "Michael", "Saltburn", "Corra!" e mais. Muito mais. O grande problema, no entanto, é que quando tudo isso é colocado junto, em formato de uma sequência de esquetes de humor independentes, a engrenagem não dá liga.

Já ouvimos isso antes

A estrutura fragmentada vai ficando bem batida à medida que o filme avança e, do meio para o final, as situações parecem sempre variações da mesma piada. Ao insistir na crítica à chamada "geração mimimi" ou, como a própria sinopse apresenta, "da cultura do cancelamento", o humor vai patinando em clichês que mais parecem uma reciclagem de milhares de outras piadas que o espectador já leu antes por aí, rolando a timeline do X, por exemplo.

Tópicos como a "machosfera", questões raciais ligadas às cotas e o debate sobre pronomes neutros já foram excessivamente explorados por dezenas de outros produtos, formatos e comediantes nos últimos anos. O problema aqui, e é importante que se diga, não são os temas abordados. Mas a forma, pouco criativa (e quase nunca engraçada), com que são tratados.

Um presente para os ex-viúvos

Curiosamente, os melhores momentos do filme acontecem justamente quando os atores deixam a fixação por essa "nova geração" de lado e passam a fazer piadas sobre eles mesmos e a criticar a própria indústria cinematográfica: Ironizando o Oscar, brincando com as escolhas de carreira que cada um do elenco fez no período em que estiveram afastados e expondo a própria batalha judicial que travaram nos bastidores para recuperar os direitos da marca.

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Felizmente, o desfecho do longa também consegue recuperar um pouco do fôlego ao entregar um final animador para os fãs, deixando evidente que os irmãos retomaram de fato o controle criativo da marca. É um belo presente para os, agora, ex-viúvos da franquia. Mas para conseguir esticar a história em uma eventual sequência sem cair no lugar-comum e no cansaço criativo que comprometem este sexto capítulo, apenas piadinhas sobre o mimimi da nova geração não vão colar.