Primeiro brasileiro em competição, o documentário "Telúrica, a Íntima Utopia" convida o espectador ao ensaio de uma peça teatral. A companhia Ueinzz cria uma obra "sobre a extinção da Terra e a vontade humana de perdurar". Essas palavras da sinopse refletem a amplitude da proposta, que pode parecer vaga no início, mas se define ao longo do filme. O grupo é composto por atores que vivem em sofrimento psíquico.
Tradição terapêutica no teatro
A proposta se insere na longa tradição terapêutica associada à dramaturgia? Basta lembrar de peças encenadas por pacientes ao longo da história, como "Marat Sade", de Peter Weiss, que relembra fatos históricos quando o Marquês de Sade, no hospício de Charenton, dirigia colegas em uma peça sobre a morte de Jean-Paul Marat pelas mãos de Charlotte Corday. O psicodrama moderno e outras formas de usar o palco para aliviar o sofrimento psíquico também vêm à mente.
Um mundo ao avesso
Um dos atores afirma: "O mundo, lá dentro, está ao contrário". De fato, é uma quase utopia de acolhimento e compreensão da diferença, oposta à nossa sociedade hostil, que exige uniformização (por razões de mercado), padronização de pensamento (por controle), competição acirrada (por exploração do trabalho) e medo (para intimidar quem foge das normas).
Direção e coletividade
A diretora Mariana Lacerda explica que o trabalho não é sobre eles, mas com eles. Busca-se a individuação de cada sujeito e, ao mesmo tempo, o engajamento coletivo em uma obra — a peça ensaiada e depois encenada ao público. Perguntada sobre a tradição terapêutica, a equipe respondeu por meio do filósofo húngaro Peter Pál Pelbart, integrante do elenco: "Sempre nos perguntam se somos um grupo terapêutico e eu respondo que não: fazemos teatro". Ele prossegue: "Muda a vida? Muda. Cura alguma coisa? Cura. Não se insere numa tradição psi, e não querendo curar, termina que, de alguma maneira, cura".
"O que temos são pessoas pensando, sobre si, sobre o mundo, o que significa um salto de subjetividade. E de dignidade", conclui o filósofo. Essas palavras estabelecem uma dialética que funda o grupo em sua originalidade. De certa forma, é um refúgio à hostilidade do mundo, mas não fuga; é reforço de subjetividades que poderiam cair no lugar-comum da psiquiatria medicamentosa.
Câmeras e autenticidade
Resta saber como a presença de câmeras e gravadores que registram essa obra interfere em seu processo. Sabe-se que qualquer câmera age sobre a situação filmada — um princípio de indeterminação aplicado à natureza humana. Neste caso, não poderia ser diferente. No entanto, o espectador não sente artificialidade no que vê na tela. Pelo contrário: vê personagens expostos às suas individualidades, sem temor de expô-las aos outros e ao público do cinema.
Em resumo, é um belo trabalho que, em termos de dispositivo cinematográfico, sabe contornar os desafios de levar o teatro à tela. Talvez porque se trate do visceral teatro da vida.



