O Vento nos Levará: obra-prima de Kiarostami sobre a morte e a vida
O Vento nos Levará: obra-prima de Kiarostami

O filme da vez é O Vento nos Levará, obra-prima de Abbas Kiarostami que integra a mostra retrospectiva do Instituto Moreira Salles (IMS), em cartaz até o final do ano. Reproduzimos aqui uma crítica publicada originalmente no Estadão em 21 de outubro de 1999.

Do suicídio ao funeral: a morte como pano de fundo

Em Gosto de Cereja, o protagonista era um possível suicida em busca de alguém para enterrar seu corpo. Já em O Vento nos Levará, a trama acompanha um homem que se desloca ao Curdistão iraniano para cobrir um ritual funerário — que, evidentemente, só poderá ocorrer se alguém morrer. Nas duas obras-primas, Kiarostami reflete sobre a morte para melhor celebrar o milagre de estar vivo.

O que mais impressiona neste novo filme, vencedor do prêmio do júri no Festival de Veneza, é o absoluto despojamento no tratamento do tema. O diretor acompanha seu hipotético protagonista, um engenheiro, em sua visita ao vilarejo de Siah Dareh. Ele conhece os habitantes, faz amizade com um garoto, interessa-se por uma anciã em estado terminal e compra leite em uma pequena fazenda — tudo isso enquanto observa uma misteriosa escavação no cemitério local. Parece nada, ou quase nada. Mas, com essa costura do cotidiano, Kiarostami tece um mundo.

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Do documental ao metafísico

O filme não se limita ao documental. Assim como em Gosto de Cereja, Kiarostami faz com que algo de ordem metafísica se insinue nesse emaranhado de pequenos fatos. Nesses momentos, atinge o sublime. E essa relação transfigurada, que aparece apenas quando muita água já correu sob a ponte, impregna o filme todo — o que está por vir e o que já passou.

Por exemplo, a história toda passa a ter outra significação depois de uma cena magnífica. O engenheiro vai comprar leite e entra num cubículo onde uma vaca é ordenhada por uma mocinha. Enquanto ela trabalha, ele conversa, recita e explica um poema. Os versos finais — "O vento nos levará" — dão título e significado ao filme.

Uma iluminação para o espectador

A sequência é uma iluminação para o espectador, pois se nota que também o é para o personagem. O terno diálogo com a mocinha, na verdade um quase monólogo, transforma-se num momento de compreensão daquilo que ele está fazendo, de fato, naquele lugar esquecido do mundo. A serena reflexão sobre a morte, sobre a finitude que dá sentido à vida, faz deste O Vento nos Levará um dos raros momentos em que o cinema atinge a condição de obra de arte.

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