Muita gente critica Natal Amargo, enquanto outros elogiam o novo filme de Pedro Almodóvar. Nem tanto ao mar, nem tanto à terra. Não é a obra máxima do diretor, mas está longe de ser insignificante. Pelo contrário, é um excelente filme que não merece ser desqualificado apenas por usar a autoficção, técnica narrativa considerada ultrapassada por alguns críticos de cinema e literatura. Tudo depende da execução, e Almodóvar é um mestre em sua arte.
Uma reflexão sobre vida e profissão
O filme é uma nova reflexão sobre a própria vida e carreira do diretor, entrelaçadas como costuma acontecer com criadores autênticos. Ele já havia feito algo semelhante em Dor e Glória, obra-prima, e agora retorna a si mesmo em Natal Amargo. A trama tem dois fios paralelos. Em um, um cineasta em crise criativa tenta escrever um novo roteiro, buscando inspiração em sua vida e nas pessoas ao redor. No outro, Elza, ex-diretora de filmes cult, agora ganha a vida gravando comerciais e se envolve com um bombeiro que trabalha como stripper em despedidas de solteira. As complexas relações entre essas linhas narrativas jogam o espectador em um labirinto de espelhos.
Personagens e o jogo de espelhos
Elza (Bárbara Lennie) ganha bem como publicitária, mas deseja voltar ao cinema de autor. Tenta escrever um novo roteiro enquanto lida com o luto pela morte da mãe, usando fatos de sua convivência com amigas, Patricia (Victoria Luengo) e Natalia (Milena Smit), que também sofreram perdas. Uma delas se revolta ao descobrir que virou personagem do roteiro de Elza. O mesmo ocorre com Raul Rossetti (Leonardo Sbaraglia), que discute com sua ex-colaboradora Monica (Aitana Sánchez Gijón) quando ela descobre que também serve de inspiração ao diretor.
O jogo de espelhos é radical. Elza e as personagens ao seu redor saem da mente do angustiado cineasta Raul, que vive em 2004, na véspera do Natal. Já Raul, em 2026, pode ser visto como alter ego do próprio Almodóvar, que na maturidade admite trabalhar com um roteirista para trazer novas propostas. Elza e os outros têm vida própria ou são marionetes da imaginação de Raul? Este é um personagem crível ou apenas expressão de Almodóvar e suas angústias? Esse quebra-cabeças proposto pelo diretor tem gerado críticas raivosas, mas não deveria surpreender: o criador inventa um mundo baseado em suas experiências e imaginação, partindo do real para criar outro, muitas vezes mais real que a própria realidade, chancelado pela busca da verdade artística. Real e imaginário convivem, e ao entrar no cinema, sabemos que tudo é inventado, mas nos comovemos. Como dizia Horácio, "A fábula fala de ti".
Questões éticas e estéticas
Há grandes questões envolvidas nessa montagem ficcional. Até que ponto o artista tem o direito de usar fatos reais e dolorosos de outras pessoas em sua ficção? A questão é mais complexa quando o artista faz parte da ficção, criando uma projeção em abismo, como bonecas russas (matrioskas), onde uma narrativa contém a outra até a última, que contém apenas a si mesma.
Isso poderia indicar um filme altamente intelectualizado, mas Almodóvar consegue suavizar essas dificuldades com o uso impecável de cores, música, emoção e intensidade dos personagens, especialmente as femininas. Algumas sequências ficam gravadas na memória do público, como as duas musicais: Amaia cantando Las Simples Cosas, acompanhada por um discreto violoncelo, embalando uma Elza desamparada; e a incrível Chavela Vargas, quase sem voz, cantando seu grande sucesso La Llorona. Essas músicas fazem parte do repertório almodovariano, especialmente Chavela, artista mexicana nascida na Costa Rica, expoente do pathos latino apreciado pelo diretor espanhol.
Diálogo com Dor e Glória
Natal Amargo dialoga com Dor e Glória, formando um notável par semiautobiográfico. Um jogo de espelhos que se miram e se deformam, propondo uma verdade fugidia sobre um criador fora de série. A origem do filme está em um conto de Almodóvar, escrito em 2003 e incluído no livro El Último Sueño. Em entrevista ao jornal El País, Almodóvar disse que o conto surgiu quando ele experimentou um ataque de pânico tão forte que se sentiu próximo da morte, assim como Elza, personagem de seu também personagem Raul Rossetti. É notável que esse jogo de espelhos, tão pessoal e aparentemente distante, possa nos comover profundamente. O velho Horácio tinha razão: quando bem contada, a fábula fala de nós.



