Filmes do Leste Europeu: Luto e Alcoolismo em Foco
Filmes do Leste Europeu: Luto e Alcoolismo em Foco

Olhar 2026: Notas sobre 'Não me deixe morrer' e outros filmes

Curitiba - Dois filmes bastante consistentes e um tanto pesados, vindos do Leste Europeu, marcam presença no cenário cinematográfico atual.

'Não me Deixe Morrer': Um mergulho no luto e na identidade

O longa-metragem 'Não me Deixe Morrer', do diretor romeno Andrei Epure, inicia-se em tons escuros, com uma mulher aparentemente perdida na noite. Maria retorna ao lar e, na entrada do prédio, encontra a vizinha morta. Sem saber o que fazer, acaba se envolvendo nos preparativos do funeral. A falecida deixou um filho, mas ninguém sabe onde ele está. No apartamento, dois cachorros vira-latas choram de fome e sede; ela os adota.

Tudo é bastante soturno e, diga-se, filmado com extremo rigor. A câmera observa, em especial, a trajetória de Maria, que, ao se envolver com a morte da quase desconhecida, começa a descobrir coisas inesperadas sobre si mesma. É quase como uma transferência de luto. Na verdade, forma-se um pesadelo que se adensa, com acenos ao cinema de gênero e toques de humor ácido. O roteiro é estranho; talvez, com uma mise-en-scène mais desleixada, perdesse seu interesse. No entanto, o domínio da linguagem mantém o espectador em suspense quanto ao destino dessa misteriosa personagem. A luz é aquela que se espera de uma produção do Leste Europeu: fria e atemorizante.

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'Se os Pombos Virassem Ouro': Documentário sobre alcoolismo e fraternidade

O documentário de Pepa Lubojacki é bastante estranho. A jovem diretora não pôde vir a Curitiba e, como acontece nesses casos, enviou um vídeo para cumprimentar o público. Fez uma advertência pouco usual: disse que, se alguém sentisse que o filme lhe fazia mal, não deveria hesitar em sair da sala imediatamente. Hoje em dia, dá-se muita importância a coisas que podem ser tóxicas ou 'gatilhos' para estados de alma negativos. Não é para tanto, mas a verdade é que o filme pode ser, às vezes, desconfortável. Nem tanto pela necessidade de invenção formal, que o percorre de ponta a ponta, com acertos e outros procedimentos menos compreensíveis. Ao que parece, usa-se muita inteligência artificial, inclusive para criar um pombo falante de voz esganiçada.

O problema, se o termo cabe, estaria no personagem principal: David, irmão de Pepa, alcoólatra e em situação de rua. Pepa tenta ajudá-lo de todas as maneiras, mas o rapaz é renitente. Enfim, trata-se de uma luta dramática entre quem quer ajudar e quem não quer ou não pode ser ajudado. Ao longo dessa batalha, ficamos sabendo que o alcoolismo não é algo estranho nessa família; o pai de Pepa e David também morreu desse mal. A coragem com que tudo é mostrado, a franqueza do que David fala e as condições variadas (e sempre péssimas) de moradia que enfrenta acabam por nos tocar. É raro ver a abordagem de um problema como esse de forma tão direta, sem enfeites ou atenuantes. O filme produz impacto no público, em especial porque uma relação tão conflituosa acaba por mostrar seu reverso: o amor fraterno, que resiste mesmo nas piores condições.

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