As Florestas da Noite: um filme noturno e fragmentado
Um estranho filme este As Florestas da Noite, de Priscyla Bettim e Renato Coelho, concorrente a melhor longa-metragem no festival Vitória 2026. Noturno, ambientado numa São Paulo desolada, com estrutura caleidoscópica e fragmentária, composta por histórias independentes que se entrelaçam em certos pontos. Gente da noite mesmo. Silvero Pereira é um dos personagens que conduzem esse périplo pela metrópole adormecida, quando os seres noturnos saem às ruas e vão viver suas vidas. A fotografia em preto-e-branco, filmada em 35 milímetros, confere uma aparência ainda mais fantasmagórica.
Momentos marcantes e um problema técnico
O filme tem bons momentos e boas histórias. Numa delas, o personagem vivido pelo ótimo ator mineiro Carlos Francisco (de Marte Um) vela a esposa morta. O ambiente pode ser um bar. O marido dirige-se a ela, fala com todo carinho. Entra outra personagem feminina, amiga da mulher morta, e começa a entoar a linda canção de ninar que Dorival Caymmi compôs para sua filha recém-nascida, Nana. Tudo seria comovente, mas não deu para curtir a cena por inteiro, pois o rosto da atriz que canta foi encoberto inteiramente pela imagem do tradutor em Libras impressa na tela. É preciso rever o filme em melhores condições.
Impressões gerais sobre o longa
Do que deu para ver, deduz-se um filme bastante elaborado em sua imagem e interessante na maneira como trata seus personagens, tidos como marginalizados numa grande e impiedosa cidade. Uma certa irregularidade é sempre o risco dessas opções fragmentárias que, repito, têm seu encanto. Um certo ar decadentista contrasta com o ufanismo artificial típico de sociedades que perderam seu rumo.
Curtas-metragens em destaque
Gostei da construção visual de Ajude os Menor (AL), de Janderson Felipe e Lucas Litrento. Tem a espacialidade, trilha sonora e ambientação de um verdadeiro faroeste nacional. Um entregador de aplicativo almoça com amigos pedreiros numa obra. Aspirações e ambições pessoais vêm à tona, mas não recebem desenvolvimento a contento. Imagens ótimas, mas falta roteiro. Fica uma observação geral: a maioria dos curtas que tenho visto parecem filmes deixados pela metade, inconclusos. Pode ser falta de meios para concluir, ou um desejo de ser lacunar. Mas a arte da lacuna é difícil. Pode ser abertura para outra narrativa, um vazio produtivo, ou falta de ideias.
Floresta do Fim do Mundo e a recepção do público
Floresta do Fim do Mundo (RJ), de Denilson Boniwa e Felipe M. Bragança, foi apresentado por Iracema Pankararu, que fez um longo, engraçado e muito aplaudido discurso no palco. Recebeu a maior ovação do público até agora, sendo aplaudida de pé pela plateia. Para efeito de comparação, a homenageada Camila Morgado, atriz de ampla trajetória, foi aplaudida apenas moderadamente, com o público sentado. Na homenagem ao falecido Luiz Carlos Barreto, de amplíssima carreira em prol do cinema brasileiro, não se ouviu uma única palma. Assim é a vida. Quanto ao filme, é interessante. Mostra a mulher indígena Suely, que divide seu tempo num apartamento da grande cidade e os sonhos que a ligam à floresta. O release informa que é parte 2 da Trilogia das Plantas, mas desconheço o que seja e não vi a parte 1.
Um Rio não É: documentário sobre o desastre ambiental
Um Rio não É (ES), de Yurie Yaginuma e Amanda Mirante, é um documentário original sobre o Rio Doce, em Minas Gerais, assassinado por desastres ambientais ligados à mineração. As entrevistas com moradores e o próprio andamento do filme sugerem o que existe de irremediável nesse desastre causado pela falta de responsabilidade das indústrias e dos órgãos que deveriam fiscalizá-las. É quase um lamento.



