A cerca de sete meses do carnaval de 2027, que será no início de fevereiro, todas as 12 escolas do Grupo Especial do Rio de Janeiro já definiram seus enredos para o desfile na Sapucaí. A safra atual é apontada como uma das mais promissoras dos últimos tempos, com temas que vão de homenagens a grandes personagens a adaptações de romances contemporâneos.
Diversidade de temas marca a safra de 2027
O jornalista e pesquisador Fábio Fabato, autor do livro "Pra tudo começar na quinta-feira: o enredo dos enredos", avalia que "a gente vive, desde 2016, uma espécie de 'primavera' dos enredos e, para 2027, a tendência de temas robustos culturalmente segue dando as cartas". A literatura brasileira contribui com duas obras: "Torto Arado", de Itamar Vieira Júnior, que inspirará a Vila Isabel, e "A Cabeça do Santo", de Socorro Acioli, base para a Unidos da Tijuca.
O jornalista e escritor Leonardo Bruno, comentarista de carnaval, destaca a tradição de adaptar livros: "É uma tradição das escolas carnavalizar livros de grandes escritores, como fizeram a Portela em 1975, com 'Macunaíma', a Beija-Flor em 2017, com 'Iracema', e a Em Cima da Hora em 1976, com 'Os sertões'. Fico feliz de ver esse movimento de retorno à literatura, porque a Sapucaí é um ótimo palco para popularizar nossos grandes autores."
Homenagens a figuras históricas e femininas
Várias escolas apostam em homenagens a personalidades. A Portela celebrará o baluarte Monarco, enquanto a Tuiuti exaltará Tia Ciata, considerada "a mãe preta do samba". O Salgueiro revisitará o mito de Xica da Silva, que em 1963 garantiu à escola seu segundo título. O carnavalesco Jorge Silveira evita o termo "reedição" e afirma que o desfile apresentará arquétipos novos.
A Beija-Flor de Nilópolis mergulha na história da pagé Zeneida Lima, de 92 anos, autora do livro "O mundo místico dos caruanas da Ilha de Marajó", que serviu de base para o enredo campeão de 1998. O carnavalesco João Vitor Araújo ressalta a presença feminina: "Em um ano com taxas alarmantes de feminicídio, ter a mulher como protagonista é uma maravilha. Pelo menos metade dos enredos homenageia mulheres."
Crítica política e valorização da memória
A Mocidade apresentará "Latinamente independente, nosso norte é o sul em manifesto", uma crítica política à influência cultural norte-americana. Fabato diz que o enredo da Unidos da Tijuca "resgata uma linha de catolicismo popular com pitada pitoresca que andava meio sumida". A Viradouro, campeã em 2026, abordará a figura do griô, guardião de memórias ancestrais, em um enredo que, segundo o carnavalesco Tarcísio Zanon, "reúne, de certo modo, as histórias de todos os outros enredos".
A Imperatriz Leopoldinense contará a história da calunga, boneca sagrada do maracatu pernambucano, que esteve desaparecida por 30 anos, no enredo "A memória do rei e o sumiço de dona Júlia". A Grande Rio viaja a Gana com "Sankofa Tabon, os retornados da Costa do Ouro e a Estrela Negra da Liberdade". A estreante União de Maricá homenageia o educador Darcy Ribeiro, idealizador do sambódromo.
Especialistas elogiam a qualidade dos enredos
O carnavalesco Lucas Milato, da Unidos da Tijuca, considera a safra "excepcional" e se diz privilegiado. Sidnei França, da Mangueira, que abordará o orixá Oyá, prefere chamar os enredos de "relevantes". A pesquisadora Rachel Valença, autora do livro "Serra, Serrinha, Serrano", atribui a qualidade ao trabalho de uma nova geração de carnavalescos, como Leonardo Bora, Gabriel Haddad, Jack Vasconcelos, Tarcísio Zanon e Leandro Vieira.
Confira os 12 enredos do Grupo Especial para 2027
- Beija-Flor: "Zeneida, o sopro do pó de louro"
- Tuiuti: "Ciata, a mãe preta do samba"
- Vila Isabel: "Torto Arado, sobre a terra há de viver sempre o mais forte"
- Mocidade: "Latinamente independente, nosso norte é o sul em manifesto"
- Unidos da Tijuca: "A cabeça do santo"
- Salgueiro: "Laroyê, Xica da Silva, a história por trás da história"
- Imperatriz Leopoldinense: "A memória do rei e o sumiço de Dona Júlia"
- Portela: "Ao mestre com carinho" (homenagem a Monarco)
- Viradouro: "Griô"
- Grande Rio: "Sankofa Tabon - Os retornados da Costa do Ouro e a Estrela Negra da liberdade"
- Mangueira: "Oyá por nós"
- Maricá: "Utopia Brasil: Darcy Ribeiro"



