Escondida no norte do Tocantins, no município de Campos Lindos, a Serra da Cangalha guarda os registros de um evento cataclísmico ocorrido há cerca de 300 milhões de anos. O impacto provocado pela queda de um meteorito de aproximadamente 20 mil toneladas formou o que hoje é conhecido como a quarta maior cratera de impacto do Brasil. O que torna o local ainda mais curioso é que, segundo estudos geológicos, o meteorito nem chegou a tocar o solo. A cratera foi moldada pela colossal liberação de energia gerada durante a explosão.
Como o meteorito criou a cratera sem tocar o solo
O geólogo e professor da Universidade Federal do Tocantins (UFT), Fernando de Morais, explicou: "Ele se desfez antes mesmo de tocar o solo, mas liberou uma quantidade enorme de energia que deformou as rochas que compõem a Bacia Sedimentar do Parnaíba". A força foi tão intensa que criou anéis concêntricos no relevo, visíveis até hoje em imagens de satélite, como as ondas formadas quando uma pedra é lançada em um rio.
Origem do nome e reconhecimento geológico
O nome popular "Cangalha" surgiu da observação dos moradores da região. Vista de lado, a formação da serra lembra uma sela de cavalo, também conhecida como cangalha. Embora o nome não seja uma denominação científica oficial, ele se consolidou devido à tradição e à cultura locais. A estrutura foi identificada na década de 1970 pelo Projeto Radam Brasil, mas, inicialmente, foi classificada apenas como um domo. Somente após análises de rochas deformadas, pesquisadores confirmaram que se tratava de uma cratera de impacto.
Potencial para geoturismo e preservação
Hoje, a Serra da Cangalha é considerada um monumento geológico com grande potencial para o geoturismo. Em 2012, o Iphan chegou a estudar a transformação da área em patrimônio nacional, mas o processo não avançou. Segundo o prefeito Romeu Kalugin (Republicanos), o local é uma das poucas crateras de impacto dessa dimensão no planeta que permanecem 100% preservadas pela natureza. "A única totalmente preservada pela natureza é a nossa. Ela mantém o local exato do impacto do meteorito, algo que desperta curiosidade por onde é apresentada", afirmou.
O prefeito também afirmou que a gestão municipal atua em parceria com os proprietários das áreas para facilitar o acesso ao local e incentivar projetos que atraiam turistas para o interior da cratera. "A meta é colocar Campos Lindos na rota definitiva de quem visita o Tocantins em busca de mistério, ciência e paisagens que não existem em nenhum outro lugar do país", ressaltou.
Atividades turísticas na cratera
A Serra da Cangalha oferece a prática do geoturismo, permitindo que os visitantes percorram trilhas e conheçam de perto o fenômeno que moldou a paisagem há milhões de anos. Atualmente, a região atrai turistas interessados em trilhas, cachoeiras e experiências únicas, como: trilhas nos anéis (caminhadas de 3 km que levam do segundo anel ao centro do impacto), cachoeiras e cavernas (quedas d'água dentro da cratera e a recém-descoberta "Caverna do Meteoro"), e voo de paramotor (sobrevoos que garantem a visão privilegiada da dimensão do buraco deixado pela energia do bólido).
Ranking das maiores crateras de impacto do Brasil
A Serra da Cangalha ocupa a quarta posição no ranking das maiores crateras do Brasil, com 13,7 km de diâmetro. As maiores são: Domo de Araguainha (GO/MT) com 40 km, cratera oceânica Praia Grande (SP) com 20 km, e São Miguel do Tapuio (PI) com 17,5 km. Completam a lista: Domo de Vargeão (SC) com 11 km, Vista Alegre (PR) com 9,5 km, Cerro do Jarau (RS) com 5,5 km, e Anel do Riachão (MA) com 4,5 km.



