Uma baleia-jubarte saltando diante da Praia de Ipanema, na Zona Sul do Rio, poderia parecer uma cena produzida por inteligência artificial. Mas ela aconteceu na manhã de terça-feira (9) e foi registrada pelo fotógrafo Gabriel Klabin, que mora no bairro e correu para casa para buscar seu drone quando percebeu a movimentação no mar.
Ao todo, segundo ele, o animal realizou mais de 50 saltos e permaneceu próximo da costa por tempo suficiente para que ele conseguisse registrar uma das imagens mais impressionantes da temporada. "Ao todo, foram mais de 50 pulos. E é muito difícil de pegar os pulos porque a gente nunca sabe quando vai ser. Mas foram tantos que deu tempo de fazer de um ângulo legal", disse Gabriel ao g1.
"É como os astronautas quando foram na lua pela primeira vez, o mais impressionante foi a foto que eles fizeram do planeta Terra. É o mesmo dessa imagem da baleia, o mais legal foi ter ela pulando, com o Rio de fundo, com os prédios, a praia, a minha casa", comparou o fotógrafo.
Registro de 14 baleias e cinco juntas
A sequência de encontros continuou nesta sexta-feira (12). Em uma nova saída ao mar, em parceria com o Instituto Vida Livre, Gabriel Klabin registrou 14 baleias-jubarte durante o período em que permaneceu na embarcação. Entre as imagens, uma das mais impressionantes mostra cinco baleias nadando juntas, um registro raro que reforça o espetáculo proporcionado pelos gigantes do mar no litoral carioca.
Os registros feitos por Gabriel ajudam a ilustrar um fenômeno que vem se consolidando no litoral fluminense: o início da temporada das baleias-jubarte, que ocorre entre junho e agosto e transforma o inverno em uma das épocas mais especiais para quem gosta de natureza e turismo ecológico.
"Ela estava a menos de 1km da praia. A uns 600 metros da praia no ponto mais perto. Depois ela foi em direção ao mar, mas continuou pulando", contou Gabriel.
Mais do que imagens impressionantes, elas são símbolos da recuperação da espécie no Brasil. Se no início da década de 1990 a população era estimada entre 1,5 mil e 2 mil baleias, hoje esse número supera 35 mil indivíduos, segundo o Instituto Baleia Jubarte.
Rota de 35 mil jubartes
O crescimento da população de baleias-jubarte no litoral brasileiro é considerado um dos maiores exemplos de recuperação de uma espécie após o fim da caça comercial. "Diante da implantação do Parque de Abrolhos, descobrimos essa pequena população restrita a Abrolhos, no final da década de 80. Em 90, fizemos nossa primeira estimativa que girava em torno de 1,5 mil e 2 mil baleias. Atualmente temos mais de 35 mil baleias. Um dado espetacular, sensação de missão cumprida", disse Enrico Marcovaldi, vice-presidente do Instituto Baleia Jubarte.
Segundo ele, esse crescimento ocorreu porque "a caça de baleias foi proibida entre 86 e 87" e, desde então, a população vem "lentamente se recuperando e reocupando antigas áreas de reprodução como essa aqui no Rio de Janeiro". A expectativa dos pesquisadores é de uma temporada intensa nesse ano. "As temporadas são cíclicas, tem temporadas que elas chegam mais tarde, tem temporadas que elas chegam mais cedo e em menor quantidade (...) tudo indica que elas chegaram mais cedo e em maior quantidade dessa vez", explicou Marcovaldi.
Para os pesquisadores, o Rio deixou de ser apenas um ponto de passagem. Segundo Enrico, "a ocorrência de baleias vem de Ilha Bela até Fernando de Noronha e o Rio de Janeiro é uma passagem. Mas não é só de passagem, estamos constatando que elas ficam aqui também". O pesquisador destaca uma descoberta importante: o nascimento de filhotes de baleias no Rio de Janeiro indica que não é só uma rota de passagem para elas. "Ano passado tivemos os primeiros registros de nascimento de filhotes, o que prova que o Rio de Janeiro é uma área importante de reprodução", contou.
Observação em terra
Nem sempre é preciso embarcar para ver uma baleia. No Pão de Açúcar funciona o primeiro e único ponto de observação de baleias da cidade, onde pesquisadores utilizam binóculos capazes de alcançar cerca de 15 quilômetros de distância para acompanhar o corredor migratório das jubartes. "Aqui a gente tá de frente pro corredor migratório das jubartes na costa do Rio de Janeiro. Elas passam exatamente entre as ilhas em direção ao nordeste", explica o pesquisador e fotógrafo Pedro Fróes.
O monitoramento em terra também é importante para a ciência porque permite observar o comportamento dos animais sem interferência. "Esse aqui é o primeiro e único ponto de observação de baleias da cidade do Rio Janeiro. A gente não precisa ir pro mar para poder observar os animais. Não tem influência nos comportamentos delas. A gente as observa sozinhas no mar, o tempo que elas precisam para se deslocar", relatou Fróes.
Baleias no Rio
As jubartes percorrem aproximadamente 10 mil quilômetros durante sua migração anual. Elas deixam as águas geladas do Oceano Antártico em busca das águas mais quentes do litoral brasileiro, onde se reproduzem e cuidam dos filhotes. A população que visita o Brasil se alimenta na região das Ilhas Sandwich do Sul e Geórgia do Sul e migra até o litoral da Bahia, especialmente o arquipélago de Abrolhos. Nesse trajeto, passam pelo litoral do Rio de Janeiro, onde podem ser observadas entre junho e agosto. Os filhotes nascem com pouca gordura corporal e dependem de águas mornas para se desenvolver antes de enfrentar novamente o frio do sul.
Para Enrico Marcovaldi, o retorno desses animais representa um patrimônio natural para a cidade. Contudo, ele alerta para a preocupação que os observadores devem ter. "É um privilégio do carioca ter esse verdadeiro patrimônio natural frequentando nossos mares, nossas praias." "As pessoas têm que ter muito respeito. Baleia é um animal que sensibiliza demais as pessoas. Mas ao mesmo tempo tem que ser feita de maneira respeitosa", ensina.
Como funcionam os passeios para ver baleias no Rio
O aumento da presença das jubartes fez surgir um novo atrativo turístico no inverno carioca: os passeios de observação de baleias. As saídas normalmente acontecem ao amanhecer, partindo da Marina da Glória, e duram entre quatro e cinco horas. As embarcações seguem para cerca de 10 quilômetros da costa, onde há maior probabilidade de avistamento. O trajeto depende dos sinais observados pelos pesquisadores e pelas tripulações, como borrifos, movimentos na superfície e informações compartilhadas entre embarcações. É importante lembrar que o avistamento depende da natureza. "Pode ser que em 15 minutos a gente encontre um grupo de baleias ou pode levar 2, 3 horas."
Regras para proteger os gigantes do mar
Para garantir a segurança dos animais e dos passageiros, a Capitania dos Portos passou a cadastrar embarcações autorizadas a fazer esse tipo de passeio. Até agora, 36 barcos receberam o selo laranja, que atesta que o condutor passou por treinamento específico. As regras incluem:
- Aproximação máxima de 100 metros;
- No máximo dois barcos por grupo de baleias;
- Permanência de até 30 minutos com o mesmo grupo;
- Motor sempre ligado, em ponto morto, para que os animais percebam a presença da embarcação.
Apesar da fiscalização, há relatos de infrações, o que pode prejudicar a presença das baleias no litoral carioca. "O que eu tenho observado é que 70% (das embarcações) não respeitam as baleias e não cumprem a legislação. Elas não vêm pra cá em condições ideais de nutrição e ainda têm que se desvencilhar de barcos de turismo. É um gasto de energia desnecessário para os animais", alertou a bióloga Liliane Lodi.
O que saber antes de embarcar
As empresas que oferecem esse tipo de passeio devem seguir normas ambientais e de segurança estabelecidas pela Marinha e pelo Ibama. Algumas são parceiras do Projeto Baleia Jubarte e contam com biólogos a bordo para orientar os passageiros e monitorar o comportamento dos animais. Veja o que é importante verificar antes de contratar o passeio:
- Preço: varia conforme o tipo de embarcação e os serviços incluídos (como alimentação ou presença de guia especializado). As empresas consultadas pelo g1 apresentaram variação de preços entre R$ 385 e R$ 600.
- Duração: em média, de 4 a 5 horas.
- Local de saída: geralmente da Marina da Glória.
- Capacidade: embarcações variam de lanchas pequenas a veleiros com grupos maiores.
- Roteiro: navegação em mar aberto com foco no avistamento das baleias.
- Segurança: uso de coletes salva-vidas, instruções antes do embarque e tripulação treinada.
- Cuidados com os animais: respeito às regras de aproximação, motor em neutro, limite de tempo e distância.
"Quando a gente dá a oportunidade para o animal se sentir confortável, ele se mostra pra gente", resumiu bem a produtora Rayssa Vieira, que voltou para Brasília com o coração acelerado após o passeio.



