Em meio ao anúncio de que os Estados Unidos impuseram uma tarifa de 25% sobre diversos produtos brasileiros, circulam nas redes sociais comparações com o chamado “tarifaço” da China. Em janeiro de 2026, Pequim elevou em 55% a alíquota sobre as exportações de carne bovina brasileira que excederem uma cota anual pré-estabelecida. Os autores das postagens alegam que o governo Lula se mantém em silêncio no caso chinês e não menciona a aplicação da Lei da Reciprocidade Comercial, ao contrário do que ameaça fazer em relação às tarifas americanas. No entanto, as duas medidas possuem diferenças fundamentais.
O que cada país decidiu
Em 31 de dezembro de 2025, o Ministério do Comércio da China anunciou a adoção de medidas de salvaguarda contra a importação de carne bovina, afetando não apenas o Brasil, mas também outros fornecedores como Argentina e Uruguai. Desde janeiro, o governo chinês estabeleceu cotas específicas por país: para o Brasil, a cota é de 1,106 milhão de toneladas em 2026, subindo para 1,128 milhão em 2027 e 1,154 milhão em 2028. Caso as importações superem esses limites, é aplicada a tarifa adicional de 55%. A medida tem duração inicial de três anos. Em 15 de julho, os Estados Unidos tarifaram em 25% diversos produtos brasileiros, com uma lista de 2.126 itens isentos, incluindo carne bovina, café e laranja. A taxação entrou em vigor em 22 de julho.
Motivações das decisões
A China justificou a salvaguarda com base no dano causado à indústria nacional pelo aumento das importações de carne bovina, que pressionou para baixo os preços pagos aos pecuaristas locais. O país apresentou essa argumentação à Organização Mundial do Comércio (OMC). Já os Estados Unidos, por meio do Escritório Comercial (USTR), propuseram a tarifa geral como compensação por supostos “atos, políticas e práticas incoerentes” do Brasil que “oneram ou restringem o comércio” americano. O USTR menciona como práticas injustas a preferência brasileira por meios de pagamento eletrônicos nacionais (como o Pix), o desmatamento na Amazônia, punições a empresas americanas de redes sociais e tarifas menores para outros parceiros comerciais.
Principais diferenças entre os casos
Larissa Wachholz, mestre em Estudos Contemporâneos da China e pesquisadora sênior do Centro Brasileiro de Relações Internacionais (Cebri), explica que a China se apoia em uma salvaguarda comercial, instrumento previsto pela OMC, utilizado quando a indústria local é impactada negativamente por um incremento de importações. “Precisa ser exercida dentro de determinados critérios e é um instrumento reconhecido no âmbito multilateral”, afirmou. Já as tarifas americanas são unilaterais, baseadas na Seção 301 da legislação doméstica dos EUA, sem prazo definido e focadas exclusivamente no Brasil. A especialista considera que não há previsão legal para essas taxações nas regras da OMC, especialmente porque o Brasil tem déficit comercial com os Estados Unidos. Além disso, a salvaguarda chinesa é setorial (carne bovina) e inclui cotas, enquanto a americana abrange diversos produtos sem limite de quantidade. A medida chinesa tem prazo determinado e progressivo, enquanto a americana não estabelece prazo.
Brasil segue negociando alternativas com a China
Ao contrário do que afirmam as publicações nas redes sociais, o Brasil continua negociando a decisão chinesa. Em maio, o governo brasileiro tentou flexibilizar a cota e abrir novos mercados para produtos agropecuários. Em relação aos EUA, a Secretaria de Comunicação Social da Presidência (Secom) divulgou nota afirmando que “iniciará imediatamente os trâmites para acionar os instrumentos previstos na Lei de Reciprocidade” e “retomará o tema no âmbito do mecanismo de solução de controvérsias da OMC”. Para Larissa, a aplicação da lei é juridicamente sustentável no caso americano, por ser direcionada ao Brasil e questionar políticas domésticas soberanas. No caso chinês, é mais difícil, pois a medida é prevista pela OMC e aplicada a vários fornecedores.
Impactos econômicos no Brasil
A cota chinesa de 1,1 milhão de toneladas anuais é prejudicial em relação a 2025, quando o Brasil exportou 1,7 milhão de toneladas de carne bovina para a China. A cota foi baseada em 2022 e 2023, quando as exportações foram de aproximadamente 1,2 milhão de toneladas por ano. Larissa Wachholz observa que o salto em 2025 pode ter sido influenciado por importadores chineses que anteciparam compras para evitar a sobretaxa. A Associação Brasileira de Frigoríficos (Abrafrigo) estima perda de até US$ 3 bilhões em receitas neste ano. Quanto às tarifas americanas, o ministro do Desenvolvimento, Indústria, Comércio e Serviços (Mdic), Márcio Elias Rosa, afirmou que atingirão 18% das exportações brasileiras para os EUA, equivalentes a US$ 7,4 bilhões com base nos embarques de 2024. A consultoria MB Associados estima que 25% da pauta exportadora brasileira para os EUA está sujeita à nova tarifa, totalizando US$ 9,51 bilhões. A Agência Brasileira de Promoção de Exportações e Investimentos (ApexBrasil) anunciou um plano de diversificação de mercados para os produtos afetados.



