Tarifaço dos EUA pode impactar Bolsa, dólar e juros no Brasil
Tarifaço dos EUA: impacto na Bolsa, dólar e juros

A possível adoção de um tarifaço pelos Estados Unidos contra o Brasil entra na reta final e pode mexer com Bolsa, dólar e juros nos próximos dias. O prazo para a decisão termina nesta quarta-feira (15), em meio a um cenário já pressionado por tensões geopolíticas entre EUA e Irã.

Contexto da proposta

Em junho, o Escritório Comercial dos Estados Unidos (USTR) propôs uma tarifa geral de 25% sobre produtos brasileiros como forma de compensar os “atos, políticas e práticas incoerentes” do País que “oneram ou restringem o comércio” americano. A medida foi sugerida a partir de uma investigação que abrangeu temas como comércio digital e serviços de pagamento eletrônico (especialmente o Pix), proteção à propriedade intelectual, acesso ao mercado de etanol e desmatamento ilegal no País.

Paralelamente, o governo americano propôs uma tarifa adicional de 12,5% ao Brasil na investigação comercial aberta sobre trabalho escravo. Essa medida também atinge a União Europeia e outros 58 países por causa de suposta “falha em impor e aplicar efetivamente uma proibição à importação de bens produzidos com trabalho forçado”.

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Diplomacia e expectativas

Desde a proposta do tarifaço, no começo de junho, até a semana decisiva para a aplicação da medida, representantes do governo brasileiro e da indústria tentaram manter diálogo com os Estados Unidos. Na última semana, empresários participaram da audiência do USTR sobre a investigação de supostas práticas desleais adotadas no comércio pelo Brasil. Representantes do setor privado consideram a tarifa de 25% inevitável, mas esperam aumento da lista de exceções. No relatório preliminar, o USTR recomendou a exclusão da tarifa para a maior parte de produtos agropecuários, aeronaves e partes aeronáuticas, fertilizantes, minerais críticos e estratégicos e insumos industriais relevantes para cadeias produtivas americanas. Agora, empresários veem espaço para a manutenção dessas recomendações e a extensão da lista a itens como calçados, café solúvel e insumos industriais, sobretudo da cadeia de máquinas e equipamentos.

Impacto para Bolsa, dólar e juros

Bruno Guimarães, planejador financeiro CFP pela Planejar, afirma que, se a tarifa for realmente de 25%, deve aumentar a pressão de alta sobre o dólar, uma vez que o mercado passará a projetar menor competitividade para as exportações brasileiras e uma consequente redução na entrada de dólar no País. Por consequência, os juros futuros devem operar em alta devido à reprecificação dessa desvalorização do real e ao risco de pressão inflacionária, o que pode gerar revisões de alta para a taxa Selic. “Diante desse cenário de deterioração cambial e perspectivas de juros maiores, os ativos de risco, como os do Ibovespa, tendem a reagir negativamente e a operar sob forte volatilidade”, acrescenta Guimarães.

Ou seja, o tarifaço pode promover uma espécie de “efeito em cadeia” nos desempenhos do dólar, da curva de juros e da Bolsa de Valores. Por outro lado, se houver uma surpresa positiva, com uma tarifa mais baixa ou uma lista de exceções ampla, as ações locais devem reagir bem e o dólar pode recuar. Prever os movimentos do mercado, no entanto, não é uma tarefa fácil, especialmente quando se trata da curva de juros. Alexandre Pletes, head de renda variável da Faz Capital, relembra que os juros futuros caíram na última sexta-feira (10), com o IPCA de junho abaixo do esperado. Já na segunda-feira (13), voltaram a subir com o acirramento das tensões entre Irã e EUA. “É difícil prever o caminho das taxas de juros. Há outros elementos que estão se sobrepondo neste momento em relação à questão tarifária”, comenta Pletes.

Para Aloísio Teles, CIO da 18Ib Capital, mais relevante do que a tarifa em si, serão as regras do tarifaço. “A alíquota importa, mas a lista de produtos atingidos, as exceções, a duração da medida e a possibilidade de negociação importam ainda mais. Uma tarifa anunciada é uma coisa. O impacto econômico efetivo pode ser bastante diferente”, destaca.

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Setores mais afetados da Bolsa

Entre as empresas da Bolsa de Valores brasileira, as mais sensíveis ao tarifaço são aquelas que têm maior dependência das exportações para os Estados Unidos. Segundo Marcos Praça, diretor de análise da ZERO Markets Brasil, na lista de setores pressionados, estão: siderurgia e mineração, com empresas como CSN (CSNA3) e Usiminas (USIM5), especialmente se produtos de aço e ferro forem atingidos; papel e celulose, como Suzano (SUZB3) e Klabin (KLBN11); e proteína animal, como MBRF (MBRF3) e Minerva (BEEF3), caso as carnes não fiquem entre os produtos isentos. Há ainda a Embraer (EMBJ3), que permanece no radar pela elevada exposição ao mercado norte-americano, embora componentes aeronáuticos estejam entre os itens discutidos para possíveis exceções.

Por outro lado, setores voltados predominantemente ao mercado doméstico, como bancos, utilities (energia e saneamento) e varejo de consumo interno, tendem a sofrer impactos mais indiretos. “A pressão sobre esses segmentos ocorre via deterioração do ambiente macroeconômico e do câmbio”, explica Praça.

Mesmo entre os setores afetados diretamente, o impacto está longe de ser uniforme. Empresas como JBS (JBSS32) e Gerdau (GGBR4) possuem plantas industriais nos Estados Unidos, o que funciona como uma proteção contra as tarifas. De acordo com Guimarães, o risco maior concentra-se em empresas que não possuem produção nos EUA, visto que as receitas dependem do fluxo direto de exportação saindo dos portos brasileiros em direção ao mercado americano.

Recomendação para o investidor

Os especialistas consultados são unânimes na recomendação principal ao investidor: evitar movimentos precipitados na carteira em função de um evento pontual. Como o mercado já vem acompanhando as discussões sobre o tarifaço, parte do risco pode estar incorporada aos preços dos ativos. Para Heitor De Nicola, especialista em renda variável da AVIN, o foco não deve ser antecipar a decisão dos EUA, mas sim avaliar a exposição da carteira aos setores potencialmente afetados. “Para quem já possui posições em empresas exportadoras, o momento é de analisar caso a caso a exposição efetiva aos Estados Unidos e a capacidade das companhias de redirecionar exportações para outros mercados”, avalia.

Para o investidor de longo prazo, a recomendação continua sendo manter uma carteira diversificada entre diferentes setores, geografias e classes de ativos. “A diversificação internacional, inclusive, ganha importância justamente diante do aumento das tensões comerciais, funcionando como um mecanismo de proteção”, diz Lucas Girão, economista e MBA em Finanças pela B7 Business School. Ele destaca ainda a importância de acompanhar não apenas o anúncio do tarifaço, mas a evolução das negociações diplomáticas entre Estados Unidos e Brasil, já que medidas comerciais podem ser revistas ao longo do tempo.