A palavra corrupção, na antiguidade greco-romana, referia-se à degradação dos corpos após a morte, quando vermes devoram o cadáver. Por extensão, passou a designar o que prenuncia a morte, como doenças graves. Os antigos chamavam o Estado de 'corpo político' e acreditavam que sua corrupção ocorria pela falência dos costumes, especialmente a falta de austeridade no trato da coisa pública. O egoísmo e a priorização do prazer privado sobre o bem comum eram vistos como causas da degradação.
Diferentemente, a ideia moderna de corrupção foca no desvio de dinheiro público. Para os antigos, o furto do erário era secundário; o essencial era a quebra dos costumes. No entanto, a visão antiga ressalta a necessidade de priorizar o bem comum sobre a vantagem individual. O Estado não vive por inércia: exige esforço constante de governantes e cidadãos. Na modernidade, essa noção se fragiliza.
A imagem da nau do Estado, vinda da antiguidade, ilustra que não há passageiros, apenas piloto e tripulantes. Todos devem contribuir ativamente. Na visão moderna, a maioria se vê como passageira, pagando impostos sem se envolver. Isso gera reclamações e descontentamento quando o Estado pede serviços gratuitos, como serviço militar ou mesário eleitoral.
Essa valorização da vida privada sobre a pública é indissociável do capitalismo e trouxe maior liberdade individual, mas também o risco de fazer o Estado sucumbir. Benjamin Constant alertou que o excesso de liberdade individual pode levar ao descaso com a vida pública, raiz da corrupção moderna. Enquanto a corrupção antiga se combatia com educação, a moderna exige polícia e Judiciário, como exemplificado pela Lava Jato, que priorizou a repressão.
Recentemente, o New York Times noticiou que Donald Trump ganhou 1,4 bilhão de dólares como presidente, não por salário, mas por ações como especulação com criptomoedas com sua efígie ou da esposa. Isso ilustra como a liberdade individual pode transbordar para a apropriação privada da coisa pública.



