O Federal Reserve (Fed) manteve nesta quarta-feira (17) as taxas de juros dos Estados Unidos na faixa entre 3,50% e 3,75% ao ano, em decisão unânime. O movimento era esperado pelo mercado. O que surpreendeu foi o tom do comunicado, na primeira reunião do indicado do presidente Donald Trump, Kevin Warsh, à frente do banco central americano.
Mudanças no comunicado
O Fed promoveu revisões em relação ao último comunicado, eliminando referências a possíveis ajustes futuros nos juros e adotando um tom mais enxuto. A principal mudança foi a retirada completa do trecho em que o banco central afirmava que avaliaria “a magnitude e o momento de ajustes adicionais” nas taxas de juros.
Na inflação, o Fed abandonou a menção à recente alta dos preços globais de energia e passou a atribuir as pressões inflacionárias a choques de oferta que afetaram diversos setores, incluindo energia. Também substituiu o compromisso de retornar a inflação à meta de 2% pela afirmação de que “entregará estabilidade de preços”.
Para Marianna Costa, economista-chefe da Mirae Asset, o texto veio em tom mais duro que o esperado. “O comunicado que seguiu a decisão é muito mais curto que os anteriores e com um viés mais duro, em particular, em relação ao comportamento dos preços”, afirma.
André Valério, economista sênior do Inter sobre o Fed, relembra que Warsh é um crítico da comunicação oficial do Fed, tendo dito durante seu processo de nomeação que o banco central americano “fala demais”. “Um comunicado mais sucinto vai em linha com essa visão e sugere que, sob o mandato de Warsh, deveremos ver menos forward guidance (projeções) por parte do banco central americano”, destaca.
Em coletiva de imprensa após a decisão, Warsh afirmou que é uma honra voltar ao banco central americano. Ele adotou um tom cauteloso no início de seu pronunciamento, enfatizando que a taxa de desemprego mudou pouco, mas que a inflação está bem acima da meta. O presidente do Fed também anunciou que está criando forças-tarefas em cinco áreas, incluindo o balanço patrimonial. Segundo o dirigente, serão estudados os comunicados do Fed, além de fontes de dados, produtividade e emprego.
Projeções do Fed para a inflação
Os dirigentes do Fed aumentaram as projeções para a inflação medida pelo índice de preços de gastos com consumo (PCE, na sigla em inglês) dos Estados Unidos para 2026 e 2027.
A projeção para o PCE em 2026 subiu de 2,7% em março para 3,6% em junho, enquanto a estimativa para 2027 teve avanço de 2,2% para 2,3%. Enquanto isso, as expectativas do PCE para 2028 e no longo prazo permaneceram sem mudanças em relação a março, em 2%.
As estimativas para o núcleo do PCE, medida que exclui itens como alimentos e energia, também subiram. A mediana passou de 2,7% para 3,3% em 2026, de 2,2% para 2,5% em 2027 e de 2% para 2,1% em 2028.
O aguardado gráfico de pontos
Enquanto o resultado da decisão já era esperado, o mercado concentrava atenções no chamado gráfico de pontos, o dot plot, usado pelos diretores do Fed para projetar as taxas futuras. O gráfico mostrou uma concentração maior de dirigentes que projetam aumento da taxa de juros nos EUA em 2026.
Segundo o relatório, nove dirigentes estimam que a taxa subirá neste ano, com 5 deles projetando algo entre 4% e 4,25%, 3 vendo uma faixa entre 3,75% e 4% e um deles acreditando que a taxa pode ir para a faixa entre 4,25% e 4,5%.
Por outro lado, oito dirigentes veem manutenção da taxa na faixa entre 3,5% e 3,75%. Um dirigente ainda enxerga espaço para que os juros recuem para a faixa entre 3,25% e 3,5% em 2026.
Apenas 18 dos 19 dirigentes apresentaram as projeções para as taxas de juros. A ausência de uma estimativa sugere que o novo presidente, Kevin Warsh, optou por não revelar uma previsão. “Esta é uma posição consistente com sua visão crítica sobre o dot plot”, afirma Vinicius Flores, analista de investimentos e sócio da Stratton Capital, gestora de investimentos americana sediada em Nova York.
Segundo ele, o gesto reforça que o mercado está diante de um Fed em transformação, com potenciais mudanças estruturais à frente. “O tom do comunicado também merece atenção. Na minha opinião, ficou claro o foco do comitê em conter a inflação, o que deve pautar as próximas decisões”, acrescenta.
Mercados têm reação negativa após decisão
Nos Estados Unidos, as bolsas de Nova York intensificaram perdas após a decisão. Nesta tarde, Dow Jones, Nasdaq e S&P 500 registram baixas de 0,74%, 0,94% e 0,97%, respectivamente.
Já os rendimentos dos Treasuries (títulos públicos dos Estados Unidos) passaram a subir nos vencimentos curtos. Antes do comunicado, operavam em queda. Às 16h28, o juro da T-note de 2 anos tinha alta a 4,193%, o da T-note de 10 anos avançava a 4,482% e o do T-bond de 30 anos diminuía a 4,93%.
O dólar também ganhou força. Nesta tarde, o euro caía a US$ 1,149, a libra recuava a US$ 1,328 e o dólar subia a 160,67 ienes. O índice DXY, que acompanha as flutuações da moeda americana em relação a outras seis divisas relevantes, tinha alta de 0,82%, a 100,353 pontos.
O impacto chegou ao mercado brasileiro. O Ibovespa, que mais cedo chegou a subir acima de 1%, inverteu o sinal e passou a cair. Na reta final do pregão, recuava 0,75% aos 168.374,38 pontos. “O mercado recebeu de forma bastante dura a decisão do Fed e o comunicado”, avalia Marco Saravalle, estrategista-chefe da Krivo Capital.



