As taxas dos DIs (Depósitos Interfinanceiros) de curtíssimo prazo operam em baixa nesta quinta-feira, enquanto as taxas com prazos longos têm altas firmes. O mercado de juros reage ao comunicado do Banco Central na véspera, visto como mais 'dovish' (suave) no combate à inflação, e ao aumento das apostas de que o Federal Reserve subirá juros até o fim do ano.
Movimento da curva de juros
Às 12h39, a taxa do DI para janeiro de 2027 estava em 14,255%, em baixa de 5 pontos-base ante o ajuste de 14,303% da sessão anterior. Já a taxa do DI para janeiro de 2035 estava em 14,6%, com alta de 25 pontos-base ante o ajuste de 14,349%.
O Comitê de Política Monetária (Copom) do Banco Central anunciou na noite de quarta-feira um corte de 25 pontos-base da taxa básica Selic, para 14,25% ao ano. Ao mesmo tempo, adotou, na visão de vários analistas, uma postura 'dovish' ao estender o horizonte relevante da política monetária — do quarto trimestre de 2027 para o primeiro trimestre de 2028 — para que a inflação possa convergir à meta de 3%.
Na prática, o BC adiou o atingimento da meta de 3% do quarto trimestre de 2027 para o primeiro trimestre de 2028, reforçando a percepção de que pode haver novo corte da Selic em agosto.
Análise de especialistas
'A curva (de juros) não tem juízo de valor. A parte curta fecha porque entende-se que o BC quer continuar cortando (a Selic), e a longa abre porque entende-se que haverá mais inflação no longo prazo e que os juros estarão mais altos', avaliou Gino Olivares, economista-chefe da Azimut Brasil Wealth Management.
'Se o BC quer cortar agora, em algum momento no futuro as taxas terão que ser mais altas', disse Olivares, ao justificar a inclinação da curva nesta quinta-feira.
Corte em setembro no radar
Alguns analistas ouvidos pela Reuters nesta quinta-feira pontuaram que o comunicado até mesmo traz a possibilidade, após nova flexibilização em agosto, de um corte adicional da Selic em setembro — algo que até então estava totalmente fora do radar.
'Hoje, à luz do que se tem hoje, a chance de corte em agosto aumentou. Em agosto vem (corte da Selic) e em setembro também há uma chance', disse o economista-chefe do Bmg, Flavio Serrano.
'Eu esperava por uma comunicação que elevasse a barra para mais um corte da Selic (em agosto). Agora o raciocínio é o contrário: o BC só não vai cortar a taxa se não der', acrescentou.
Em análise publicada após a decisão, a equipe da Genial Investimentos também viu uma comunicação 'dovish'. 'O grande destaque ficou por conta justamente da rolagem do horizonte relevante em um trimestre à frente, sinalizando que o comitê opta por buscar uma justificativa que sustente um corte de juros, mostrando uma postura mais propensa a riscos inflacionários', avaliou a Genial.
Impacto nas expectativas
Alguns analistas ponderaram que, ao sinalizar mais leniência com a inflação, o BC pode impactar negativamente as expectativas do mercado para a inflação.
'Ao sinalizar que vai cortar (a Selic), na prática ele diminuiu mais ainda o espaço que ele tem para cortar', resumiu Olivares, que disse esperar que o BC corrija a comunicação na ata do encontro do Copom, a ser divulgada na próxima terça-feira. 'Mas o estrago já está feito.'
Influência do Federal Reserve
O movimento na curva brasileira ocorre em meio ao aumento das apostas no exterior de que o Federal Reserve poderá subir juros pelo menos uma vez até o fim de 2026. Isso porque a instituição anunciou na tarde de quarta-feira a manutenção de sua taxa de juros na faixa de 3,50% a 3,75% ao ano, mas passou indicações de que um aumento pode ocorrer até o fim do ano.
Após o avanço da véspera e em meio à queda do petróleo Brent nesta quinta-feira, às 12h38 o rendimento do Treasury de dois anos — que reflete apostas para os rumos das taxas de juros de curto prazo — mostrava estabilidade, aos 4,16%. No mesmo horário, o retorno do título de dez anos — referência global para decisões de investimento — caía 3 pontos-base, a 4,436%.



