O governo federal decidiu prorrogar a atual edição do programa Desenrola Brasil, que permite a renegociação de dívidas bancárias. Lançado em maio, o Desenrola 2.0 tinha previsão original de encerramento no domingo (2 de julho), mas o ministro da Fazenda, Dario Durigan, confirmou que a iniciativa será estendida até 31 de agosto. A medida ocorre a pedido dos bancos, que avaliam haver maior demanda, e não exigirá novos aportes no Fundo de Garantia de Operações (FGO), que cobre eventuais calotes, nem alterações nas regras existentes.
Prorrogação estratégica em ano eleitoral
Com a prorrogação, o programa estará em vigor durante o início da campanha eleitoral, aproximando-se das eleições. Durigan destacou que o prazo adicional permitirá que pessoas que estão acessando programas como o Move Brasil — outra medida do pacote de estímulo e crédito do governo — possam resolver pendências financeiras e se enquadrar nas condições para operações de automóveis e motocicletas. "Esse prazo adicional vai ser importante, inclusive, para que as pessoas que hoje estão tendo de acessar os programas de moto, carro, para trocar a sua moto, o seu carro, possam resolver eventuais pendências previamente, que é usar o Desenrola, para depois se enquadrar nas condições para as operações de carro e moto e também poderem fazer jus a essas obrigações", afirmou o ministro.
Meta de 10 milhões de famílias beneficiadas
O ministro estima que, com a extensão, o governo deve alcançar dez milhões de famílias beneficiadas. O autônomo Guilherme Teixeira, de 25 anos, é um dos potenciais interessados. Após cinco meses de instabilidade financeira, ele recorreu ao cartão de crédito para cobrir despesas diárias. Com os juros, a dívida cresceu para cerca de R$ 10 mil. Ele já tentou negociar com o banco, mas as taxas oferecidas não eram atraentes. "O endividamento é causado pelo desequilíbrio entre o que se ganha e o que se gasta para viver minimamente bem. Não faz sentido triplicar a dívida de quem não conseguiu honrar nem o valor original", disse Teixeira, que planeja reduzir o uso do cartão após quitar o débito.
Números do programa até agora
Até o último dia 23, foram renegociados no novo Desenrola R$ 22 bilhões em dívidas, em um total de 3,6 milhões de operações. Após os descontos, o volume desses débitos caiu para cerca de R$ 4 bilhões. A vertente do programa abrange dívidas de pessoas físicas no cartão de crédito, cheque especial e crédito pessoal (CDC), contratados até 31 de janeiro de 2026 e com atraso entre 91 dias e 2 anos. Os participantes podem obter descontos de até 90% e taxa máxima de juros de 1,99% ao mês, com até 48 meses para pagar.
Uso do FGTS ainda tímido
O programa prevê a possibilidade de utilizar parte do saldo do FGTS para amortização parcial ou quitação das dívidas, mas a opção está sendo pouco usada. Até o momento, foram feitas 110 mil operações, com valor de apenas R$ 62,2 milhões. O Desenrola foi recriado em um contexto de alta do endividamento e elevado comprometimento de renda das famílias, que, na visão do governo, gerava riscos para a economia no médio e longo prazos e impactava negativamente a popularidade presidencial. A lógica do programa é que os bancos renegociem os débitos e abram uma nova dívida, menor e com garantia do FGO, reduzindo o risco de inadimplência e recuperando a capacidade de consumo das famílias.
Endividamento estrutural e críticas
Estatísticas do Banco Central mostram que as dívidas correspondem a 30% da renda acumulada em 12 meses pelas famílias, percentual praticamente estável desde o fim de 2021, na métrica que desconsidera o crédito habitacional. O juro alto pesa no orçamento. Flávio Ataliba, pesquisador do FGV Ibre, afirma que "o histórico mostra que esse tipo de alívio, isoladamente, não interrompeu o ciclo estrutural de endividamento". Uma das variáveis é a taxa de inadimplência do cartão de crédito entre pessoas físicas, que chegou a 63% em maio. Para Fábio Bentes, economista sênior da Confederação Nacional do Comércio de Bens, Serviços e Turismo (CNC), as famílias acumularam muitas dívidas em cinco anos, incluindo o período da pandemia. Ele considera a prorrogação bem-vinda, mas ressalta que não ataca o cerne do problema: o juro alto. A taxa média de juros no crédito livre para as famílias supera 60% ao ano, maior patamar desde 2017.
Visão de especialistas
Flávio Ataliba diz que esta edição trouxe regras mais azeitadas, com descontos mais agressivos, veto ao uso de bets e possibilidade de uso do FGTS. Segundo ele, o anúncio da prorrogação antes do fim do prazo indica que a equipe econômica conta com o Desenrola como parte da estratégia de sustentação do consumo no segundo semestre. No entanto, ressalta que a medida não resolve o problema estrutural. A primeira edição do Desenrola negociou R$ 53 bilhões em dívidas entre junho de 2023 e maio de 2024. Ataliba reforça: "O histórico mostra que esse tipo de alívio, isoladamente, não interrompeu o ciclo estrutural de endividamento. Sem mudar os fatores que alimentam esse fluxo, como os juros do crédito rotativo, do cheque especial, do crédito pessoal e do crédito não consignado, além da própria Taxa Selic, o endividamento vai continuar elevado".
Versões para empresas e inadimplentes
O governo já criou uma versão do Desenrola para pessoas em dia com dívidas, mas rejeitada pelos bancos privados, o programa não decolou. Mesmo os bancos públicos não estariam tão agressivos quanto o governo gostaria, segundo um interlocutor. Na versão para empresas, o programa já renegociou R$ 25 bilhões em dívidas, em 200 mil operações, a maioria via Pronampe, com R$ 23,4 bilhões. Apesar dos avanços, especialistas alertam que enquanto não houver ataque ao juro alto e à educação financeira, o ciclo de endividamento tende a persistir.



