Deflação em junho traz alívio, mas inflação acumulada exige cautela do Fed
Deflação em junho: alívio, mas cautela do Fed permanece

A deflação registrada em junho trouxe alívio para os mercados financeiros, mas a inflação acumulada ainda exige cautela por parte do Federal Reserve (Fed). O índice de preços ao consumidor (CPI) dos Estados Unidos caiu 0,1% em junho, a primeira queda mensal em mais de dois anos, impulsionada pela redução nos preços da gasolina e de outros bens. No entanto, o núcleo da inflação, que exclui alimentos e energia, subiu 0,1% no mês e 3,3% em 12 meses, ainda acima da meta de 2% do Fed.

Impacto nos mercados e expectativas para juros

A desaceleração da inflação reforçou as apostas de que o Fed iniciará cortes nos juros ainda neste ano. O mercado de futuros passou a precificar uma probabilidade de 70% de redução da taxa básica em setembro, contra 50% antes do dado. O rendimento dos títulos do Tesouro americano de 10 anos caiu para 4,18%, o menor nível desde março. O dólar também recuou, com o índice DXY operando abaixo de 104 pontos.

"A deflação é um sinal positivo, mas o Fed precisa ver mais evidências de que a inflação está convergindo para a meta antes de agir", afirmou o economista-chefe do Goldman Sachs, Jan Hatzius, em nota a clientes. "O núcleo ainda está acima de 3%, e o mercado de trabalho segue apertado, o que pode gerar pressões salariais."

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Reação dos investidores e fluxo para emergentes

Com a perspectiva de juros mais baixos nos EUA, investidores estrangeiros voltaram a buscar ativos de risco em mercados emergentes, incluindo o Brasil. A B3 registrou entrada líquida de capital estrangeiro de R$ 1,2 bilhão na semana, após meses de saídas. O Ibovespa subiu 1,5% no dia, puxado por ações de commodities e empresas domésticas sensíveis aos juros.

"O fluxo gringo pode voltar se a trajetória de juros americanos realmente mudar", disse o estrategista de mercados do Santander, Ricardo Jorge. "Mas o cenário fiscal brasileiro ainda preocupa, e o investidor estrangeiro é seletivo."

Deflação no Brasil também surpreende

No Brasil, o IPCA de junho também veio abaixo do esperado, com queda de 0,08%, puxada por alimentos e transportes. A inflação acumulada em 12 meses recuou para 3,9%, dentro do intervalo da meta. O Banco Central, no entanto, manteve a Selic em 10,50% na última reunião, sinalizando cautela com as expectativas de inflação futura.

"A deflação aqui e lá fora pode dar mais conforto ao Copom para iniciar cortes, mas a comunicação do BC tem sido dura", avaliou a economista-chefe do Banco do Brasil, Maria Silva. "O mercado espera o início do afrouxamento apenas em setembro."

Perspectivas para o segundo semestre

Analistas veem espaço para queda adicional dos juros futuros no Brasil, com a curva de juros já precificando cortes. O Tesouro Direto registrou taxas menores nos títulos IPCA+, com o papel de 2026 rendendo IPCA+6,5%, contra 7% no mês passado. A demanda por títulos indexados à inflação segue forte, à medida que investidores buscam proteção.

"O nível de juro real ainda é histórico e atrativo, mas é preciso cautela com o alongamento", alertou o planejador financeiro da XP, Pedro Costa. "A queda da inflação pode ser temporária, e o fiscal continua sendo uma incógnita."

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