O Brasil está redescobrindo seus rios. Com a iminente concessão de 600 quilômetros da Hidrovia do Paraguai, em Mato Grosso do Sul, o país dará um passo importante para destravar um dos modais de transporte mais eficientes e sustentáveis. O leilão, previsto para dezembro, marcará a estreia das concessões hidroviárias brasileiras e pode transformar a logística nacional. Atualmente, 65% das cargas circulam por rodovias, enquanto apenas 5% seguem pelos rios, apesar de o país contar com 60 mil quilômetros de vias navegáveis, dos quais só um terço é aproveitado.
A concessão do trecho entre Corumbá e Porto Murtinho, no Rio Paraguai, inclui também o Canal do Tamego. Em 2023, passaram pela hidrovia 8 milhões de toneladas de cargas. A partir de 2030, a movimentação poderá chegar a 30 milhões de toneladas com os investimentos do consórcio vencedor. Nos primeiros cinco anos, estão previstos 74 milhões de reais para garantir a navegação segura e sustentável, incluindo dragagem, balizamento, sinalização e gestão de tráfego.
A Agência Nacional de Transportes Aquaviários (Antaq) submeteu o modelo econômico a audiências públicas em fevereiro e abril. O edital será analisado pelo Tribunal de Contas da União. O diretor da Antaq, Alber Vasconcelos, destaca que a concessão trará navegabilidade previsível, com medições em tempo real do fluxo da água, permitindo que os usuários saibam a capacidade de carga das barcaças.
Enquanto isso, o transporte ferroviário enfrenta entraves. A operação da ferrovia Malha Oeste, que ligaria Corumbá a Mairinque (SP), demandaria investimentos de 18 bilhões de reais, mas a concessionária Rumo apontou baixo potencial de cargas em trechos específicos. Nesse cenário, a Hidrovia do Paraguai surge como alternativa viável: um comboio típico carrega 48 mil toneladas, equivalente a 430 vagões ou 1.200 caminhões.
O modal hidroviário também oferece vantagens ambientais e econômicas. Estudo da Confederação Nacional do Transporte mostra que emite 80% menos CO2 que o rodoviário e 14% menos que o ferroviário. O custo do frete hidroviário é 60% menor que o rodoviário e 30% inferior ao ferroviário. Especialistas, como o consultor Frederico Turolla, defendem que a hidrovia deve ser complementar aos eixos rodoferroviários.
Casos concretos reforçam a sustentabilidade. A Wilson Sons estima redução de 55% nas emissões com o terminal hidroviário do Polo Petroquímico de Triunfo (RS), em comparação ao transporte rodoviário. Paulo Bertinetti, diretor-presidente do Tecon Rio Grande, afirma que o modal hidroviário oferece menor risco de acidentes e contribui para a diminuição dos gases de efeito estufa.



